# A FLORESTA QUE O ESTADO MANDOU DERRUBAR

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- Published: 2026-06-01T07:46:14+00:00
- Author: assessoriabrowbrow

No Sul do Piauí, a maior devastação ambiental do Brasil em 2025 não foi crime. Foi
licença.

O dado choca menos pela escala do que pela assinatura que o autoriza. Existe uma
burocracia que transforma extermínio em procedimento.

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> Há um número que parece pequeno e é monstruoso: 80 campos de futebol por dia. 
> Foi essa a velocidade com que a Caatinga desapareceu em Canto do Buriti ao longo
> de 2025. Não em uma semana de fúria, não num incêndio descontrolado. Todos os 
> dias. Metodicamente. Enquanto a manhã nascia sobre a cidade a 410 quilômetros 
> de Teresina, máquinas já arrastavam correntes pelo solo seco, e à noite mais um
> pedaço de bioma havia deixado de existir. O município perdeu 20.877 hectares de
> vegetação nativa, segundo o Relatório Anual do Desmatamento divulgado pelo MapBiomas
> na quarta-feira. A área equivale a quase o dobro do território de Paris. E aqui
> mora a primeira inversão do senso comum: é a primeira vez que a cidade assume 
> o topo do ranking nacional entre os 5.572 municípios monitorados. O salto foi 
> vertical. Em 2024, Canto do Buriti ocupava apenas a 12ª posição entre as cidades
> que mais desmataram no país. Em um ano, a 12ª colocada virou a primeira do Brasil
> inteiro.

O contraste com o país é o que expõe a anomalia. Pela primeira vez desde 2019, a
área total desmatada no Brasil ficou abaixo de 1 milhão de hectares em um único 
ano, com redução de 20,6% em relação a 2024. O Brasil, em tese, freava. Canto do
Buriti acelerava na contramão. Quando a maré recua e uma única pedra continua afundando,
não é a maré que explica a pedra. Agora o ponto que dói. Procurada, a Semarh não
negou a devastação. Ela a CONFIRMOU. Do total de áreas suprimidas no estado em 2025,
cerca de 72% ocorreram mediante autorização legal dos órgãos ambientais competentes,
dentro dos critérios da legislação brasileira. A secretaria ainda argumenta que 
os dados precisam ser analisados de forma contextualizada e técnica. A prefeitura,
por sua vez, repassou a responsabilidade: as licenças são emitidas pela Semarh, 
e até a última atualização não se manifestou. O silêncio municipal e a confirmação
estadual desenham juntos um mesmo retrato. NINGUÉM ESTÁ ESCONDENDO NADA PORQUE NÃO
HÁ NADA DE ILEGAL A ESCONDER.

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CANTO DO BURITI PIAUÍ

É aqui que o caso deixa de ser ambiental e vira filosófico. Existe uma diferença
abissal entre o que é legal e o que é legítimo, e o Direito moderno raramente admite
essa fenda em voz alta. Hannah Arendt já havia descrito o fenômeno em outro contexto:
a banalidade do mal não exige monstros, exige funcionários. O dano em escala industrial
costuma chegar não com gritos, mas com formulários carimbados, protocolos preenchidos,
assinaturas dentro do prazo. A motosserra obedece à lei. E a lei, no Sul do Piauí,
autorizou. A geografia completa a denúncia. Os dez municípios com maior área desmatada
responderam juntos por 15% do total do país, sendo que oito deles estão no Matopiba.
O Matopiba, fronteira agrícola que cruza Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, é o
novo eldorado da soja brasileira, a terra onde o agronegócio avança sobre o Cerrado
e a Caatinga com a bênção do desenvolvimento. Junto com Mato Grosso, os estados 
do Matopiba respondem por mais de 63% de toda a área desmatada no Brasil em 2025.
E o vetor é nítido: a expansão da agropecuária responde por 99% da vegetação nativa
perdida no Brasil em 2025. Não é o garimpeiro anônimo. É O MODELO ECONÔMICO FUNCIONANDO
EXATAMENTE COMO FOI PROJETADO.

Há um detalhe psicológico que sustenta tudo isso, e ele explica por que a sociedade
não se revolta. A Caatinga é o único bioma exclusivamente brasileiro, e mesmo assim
carrega no imaginário nacional o estigma do feio, do seco, do lugar de onde se foge.
Ninguém chora por uma paisagem que aprendeu a desprezar. A Amazônia tem santuário
simbólico, tem documentário, tem celebridade. A Caatinga tem o silêncio de quem 
nunca foi considerado digno de luto. E é precisamente o que não se valoriza que 
se derruba sem ruído. Compare o tempo. No século passado, derrubar uma floresta 
dependia de braços, machados, meses. Hoje depende de uma assinatura e de um trator.
A tecnologia comprimiu em 289 dias aquilo que antes levaria gerações. A eficiência,
essa palavra de ordem da modernidade, mostrou seu avesso: somos cada vez mais rápidos
em destruir aquilo que somos lentos demais para entender.

Fica a pergunta que não tem resposta limpa. Se a maior devastação ambiental do país
pode ser inteiramente legal, então de que serve a lei. E se a lei serve para permitir,
e não para conter, talvez a verdadeira floresta que precise ser protegida não esteja
no Sul do Piauí. ESTEJA NA DEFINIÇÃO DO QUE CHAMAMOS DE PERMITIDO.
