segunda-feira, 29 de junho de 2026
Urgente
05:51   QUINTAL DA MARA: O RESTAURANTE QUE NASCEU DA CORAGEM DE UMA EMPRESÁRIA PIAUIENSE05:15   JUSTIÇA BLOQUEIA QUASE R$ 200 MIL DA GESTÃO DO PREFEITO DR. MARCOS EM ELISEU MARTINS POR DÍVIDA COM PRECATÓRIOS09:08   Professor Zenivan Trindade apresenta Marcos Canguru como pré-candidato e movimenta o cenário político de Bertolínia no piauí06:47   INOVAÇÃO NA SEGURANÇA DE MARCOS PARENTE PREFEITO GEDISON RODRIGUES ASSINA ORDEM DE VIGILÂNCIA04:59   ANA PAULA REÚNE CERCA DE 600 LIDERANÇAS EM TERESINA E SINALIZA NOVA ETAPA DE SUA ARTICULAÇÃO POLÍTICA PARA 202604:28   MANOEL EMÍDIO ENTREGA PAVIMENTAÇÃO DE R$ 900 MIL E CONSOLIDA INVESTIMENTO ACOMPANHADO DO INÍCIO À CONCLUSÃO01:19   GOVERNO DO PIAUÍ ESTUDA ISENÇÃO DE PEDÁGIO PARA VEÍCULOS LEVES NA RODOVIA DA SOJA E REDESENHA O DEBATE SOBRE QUEM DEVE PAGAR PELA INFRAESTRUTURA09:23   VEREADOR RENAN PIMENTEL DEFENDE INDEPENDÊNCIA DO LEGISLATIVO DE LANDRI SALES, CRITICA PROJETOS DE URGÊNCIA E COBRA INCENTIVO À CULTURA05:51   QUINTAL DA MARA: O RESTAURANTE QUE NASCEU DA CORAGEM DE UMA EMPRESÁRIA PIAUIENSE05:15   JUSTIÇA BLOQUEIA QUASE R$ 200 MIL DA GESTÃO DO PREFEITO DR. MARCOS EM ELISEU MARTINS POR DÍVIDA COM PRECATÓRIOS09:08   Professor Zenivan Trindade apresenta Marcos Canguru como pré-candidato e movimenta o cenário político de Bertolínia no piauí06:47   INOVAÇÃO NA SEGURANÇA DE MARCOS PARENTE PREFEITO GEDISON RODRIGUES ASSINA ORDEM DE VIGILÂNCIA04:59   ANA PAULA REÚNE CERCA DE 600 LIDERANÇAS EM TERESINA E SINALIZA NOVA ETAPA DE SUA ARTICULAÇÃO POLÍTICA PARA 202604:28   MANOEL EMÍDIO ENTREGA PAVIMENTAÇÃO DE R$ 900 MIL E CONSOLIDA INVESTIMENTO ACOMPANHADO DO INÍCIO À CONCLUSÃO01:19   GOVERNO DO PIAUÍ ESTUDA ISENÇÃO DE PEDÁGIO PARA VEÍCULOS LEVES NA RODOVIA DA SOJA E REDESENHA O DEBATE SOBRE QUEM DEVE PAGAR PELA INFRAESTRUTURA09:23   VEREADOR RENAN PIMENTEL DEFENDE INDEPENDÊNCIA DO LEGISLATIVO DE LANDRI SALES, CRITICA PROJETOS DE URGÊNCIA E COBRA INCENTIVO À CULTURA
Globoplay ao vivo
Música

O FUNK NÃO ENTERRA SEUS MORTOS: MC KEVIN ESTREIA “ESQUECE, É SÓ FUNK” EM 22 DE MAIO E ANTECIPA INÉDITAS PARA JUNHO

8 min de leitura Verificado

Foto · @obrowbrow | The BrOW Brasil

Cinco anos após a queda do quinto andar de um hotel no Rio de Janeiro, álbum reúne a seleção definitiva do funkeiro paulista e prepara o terreno para “Dicionário da Quebrada”, disco com faixas inéditas previsto para o próximo mês.

Entre o luto que se recusa a terminar e o catálogo que segue produzindo receita, o Brasil é forçado a encarar o que faz da morte de um artista da periferia um acontecimento econômico, simbólico e psíquico de longa duração.

Em 22 DE MAIO, exatos cinco anos e seis dias após o impacto que silenciou Kevin Nascimento Bueno aos 23 anos, a voz volta. “ESQUECE, É SÓ FUNK”, anunciado pela equipe que administra o espólio artístico, estreia nas plataformas digitais reunindo o que a curadoria interna considera a SELEÇÃO DEFINITIVA da trajetória do MC nascido em 29 de abril de 1998 na Vila Ede, Zona Norte de São Paulo. O movimento não é isolado. Em junho desembarca “DICIONÁRIO DA QUEBRADA”, álbum com inéditas que reaproveita a chave conceitual da música homônima, aquela em que Kevin contrapõe o saber formal ao código aprendido na rua e devolve à periferia o direito de nomear o próprio conhecimento.

A operação obedece a uma lógica que o país já conhece de cor, mas raramente disseca. O catálogo de Kevin opera há um lustro como uma fábrica de presença sem corpo. “PASSADO & PRESENTE”, lançado em 21 de maio de 2021, cinco dias após a morte, ultrapassou 1 MILHÃO DE STREAMS em nove horas e cravou marcas superiores a 70 MILHÕES de reproduções no Spotify. “O Menino Ainda Encanta a Quebrada”, de 2023, manteve a engrenagem viva com sete faixas e participações de MC Hariel, MC Don Juan, MC Pedrinho, MC 7 Belo, MC Ryan SP, Djay W, DJ Nene e DJ Jornin. “Isolado no Quarto 2.0” ampliou o gesto. Agora, “Esquece, É Só Funk” e “Dicionário da Quebrada” sinalizam um novo ciclo, conduzido pela REVOLUÇÃO RECORDS, gravadora independente criada por Kevin após a saída da GR6, em parceria de distribuição com a WMD e sob coordenação da mãe do artista, VALQUÍRIA NASCIMENTO, a Dona Val.

O QUE O PÓSTUMO DIZ SOBRE QUEM FICOU

A persistência do nome de Kevin nas plataformas não é apenas estratégia comercial. É sintoma. Quando uma figura sai de cena de forma abrupta, o coletivo que a sustentava recusa a interrupção. O luto da quebrada não funciona como o luto burguês, que pede silêncio, retiro e digestão lenta da ausência. Funciona como prolongamento, como insistência da voz no mesmo grave que a fez aparecer. Cada faixa nova é uma elaboração do trauma sem palavras técnicas para nomeá lo. O fã que aperta o play em “Cavalo de Tróia” pela milésima vez está, sem saber, realizando um trabalho psíquico que o sistema de saúde não oferece à periferia. Está reorganizando a perda dentro do código estético que estruturou sua subjetividade.

Existe uma dimensão de gozo na permanência. O morto que produz funciona como promessa secreta de imortalidade para quem o escuta. Se Kevin segue lançando discos, o quinto andar do hotel no Rio não venceu inteiramente. A negação opera como combustível. E a indústria, atenta, transforma essa recusa em catálogo.

A ONTOLOGIA DO QUE SOBRA

Toda morte produz dois corpos. O biológico, que se decompõe, e o simbólico, que pode crescer indefinidamente. No caso de Kevin, o segundo corpo está em fase de expansão acelerada. Não se trata de mero arquivo. Trata se de presença ativa, capaz de ocupar paradas, gerar receita e fundar narrativa.

O que a estreia de “Esquece, É Só Funk” reabre é uma questão fundamental sobre o tempo. O presente do artista deixou de coincidir com seu tempo de vida. A voz registrada em 2019 ou 2020 chega aos ouvidos de adolescentes em 2026 como se fosse de hoje, ignorando o fato de que o emissor está enterrado há cinco anos. Essa dessincronia, antes considerada anomalia do regime fonográfico, virou norma. A morte deixou de ser ponto final e passou a ser etapa de carreira.

Há ainda um deslocamento ético embutido na operação. Quem decide o que o morto teria lançado se vivo estivesse. Quem assina a curadoria afetiva. Quem detém a chave da casa onde habitam as gravações que ele nunca aprovou para o mundo. No caso de Kevin, a resposta é a família, em arranjo com a Revolução Records. A legitimidade é afetiva e jurídica, mas o debate filosófico permanece em aberto, porque o consentimento do artista, por definição, já não pode mais ser obtido.

A ENGENHARIA SOCIAL DO FUNK DE SÃO PAULO

A trajetória de Kevin não é genérica. É uma trajetória de classe, de território e de raça. Vila Ede, periferia da Zona Norte paulistana atravessada por desigualdade e violência policial. O percurso que vai de “Prepara Novinha”, ainda na adolescência, a “Set dos Casados”, “Cavalo de Tróia” e “Veracruz” é o mesmo percurso material que retira um adolescente da invisibilidade e o coloca dentro da economia simbólica do país. O funk de fluxo paulista, vertente em que Kevin se consolidou, opera como dispositivo de mobilidade social abrupta, sem mediação do diploma, do concurso público ou do salário formal.

Quando Kevin sai da GR6 e funda a Revolução Records, o gesto não é apenas empresarial. É político. Significa a tentativa de uma figura periférica de controlar os meios de produção do próprio som, em um mercado em que historicamente o artista entra para enriquecer outros. A continuidade da gravadora após a morte, agora administrada pela mãe, prolonga essa disputa simbólica. A periferia não apenas produz o som que o Brasil consome. Está aprendendo a administrar o próprio espólio.

O dado mais brutal, porém, é o do consumo. O catálogo de Kevin não para de crescer porque o ouvinte de funk não trata o gênero como entretenimento descartável. Trata como espelho. As marcas de mais de 70 MILHÕES de reproduções de “Passado & Presente” e os números acumulados ao longo de meia década indicam que existe um público estruturalmente fiel, que reconhece na biografia do artista a própria biografia interrompida ou suspensa.

COMO O PENSAMENTO SE ENOVELA

A questão psíquica do luto coletivo, a questão filosófica do que continua existindo após o corpo desaparecer e a questão sociológica do mercado periférico não funcionam em camadas separadas. Atravessam se. O fã que escuta a faixa nova realiza um trabalho de elaboração afetiva, mas também alimenta uma engrenagem que move milhões de reais, em um setor da economia cultural que opera fora do circuito tradicional dos prêmios e do reconhecimento da grande mídia. O artista póstumo é, simultaneamente, ente afetivo, conceito ontológico e ativo financeiro. Tentar separar essas dimensões é falsear a leitura.

O BRASIL PÓSTUMO E O LUGAR QUE RESERVA AOS SEUS MORTOS

A história brasileira é farta em mortos jovens cujas obras passaram a render mais após a morte do que em vida. O fenômeno se intensifica entre artistas da música popular, em especial dos gêneros nascidos nas periferias. O ciclo se repete e a indústria já desenvolveu protocolos para gerenciar o trajeto. O funk apenas leva esse protocolo a um grau de eficiência inédito, em parte por causa do streaming, em parte por causa da relação umbilical entre o ouvinte e o ídolo.

No cenário internacional, a comparação é imediata. O catálogo de Tupac segue ativo décadas após o assassinato em Las Vegas. XXXTentacion e Pop Smoke, mortos jovens, viraram máquinas de lançamento contínuo. A diferença brasileira é estrutural. Aqui, a economia póstuma do funk acontece em parte fora das grandes plataformas de gestão de catálogo. Funciona por administração familiar, contratos com distribuidoras locais e laços de comunidade. É uma indústria póstuma de baixa institucionalidade e alta intensidade afetiva.

O QUE SE REABRE EM 22 DE MAIO

A estreia de “Esquece, É Só Funk” não é apenas mais um lançamento póstumo. É um teste de força do nome de Kevin contra o desgaste natural do tempo. É também uma reafirmação da capacidade da quebrada de não soltar seus ídolos. E é, em última instância, uma pergunta dirigida a quem escuta. O que o ouvinte está consumindo quando aperta o play em uma faixa cuja voz já não pode mais responder. Talvez não esteja consumindo música. Talvez esteja, há cinco anos, negociando os termos de uma despedida que se recusa a acontecer.

A

assessoriabrowbrow

Redação The Brow Brasil — jornalismo, investigação e cultura.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *