A 5ª fase da investigação, autorizada pelo ministro André Mendonça, aponta o presidente do Progressistas como destinatário central de vantagens indevidas do Banco Master e detonou uma crise em cadeia que alcança a Presidência do Senado e a articulação eleitoral da direita
A Polícia Federal não chegou ao senador Ciro Nogueira (Progressistas-PI) por delação isolada ou indício circunstancial. A 5ª fase da Operação Compliance Zero, autorizada pelo ministro André Mendonça, do STF, é construída sobre mensagens interceptadas, movimentações financeiras rastreáveis e triangulações societárias com lacunas que a própria PF qualifica como incompatíveis com o mercado. O material colocou o presidente nacional do Progressistas na condição de “destinatário central” de vantagens indevidas em um suposto esquema com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, e deflagrou uma crise cujos efeitos ainda estão em expansão.
O STF bloqueou R$ 18,85 milhões em bens de Ciro, proibiu seu contato com investigados e suspendeu as atividades da CNLF Empreendimentos, empresa apontada pela PF como principal veículo patrimonial ligado ao seu núcleo. A decisão de Mendonça não é provisória de praxe: ela detalha quatro eixos investigativos com especificidade suficiente para indicar que o ministro encontrou fundamento concreto na representação da PF.
A arquitetura do esquema
O primeiro eixo é o mais direto. A PF identificou mensagens em que o próprio Vorcaro cobra atrasos nos repasses ao senador. Em conversa com seu primo Felipe, em janeiro de 2025, o banqueiro menciona o aumento de R$ 300 mil para R$ 500 mil nos valores ligados à estrutura do parlamentar. Em outro diálogo, reclama em primeira pessoa: “Cara, eu no meio dessa guerra, atrasou dois meses, Ciro?”. A PF afirma que Vorcaro disponibilizou ainda um cartão corporativo para cobrir despesas pessoais do senador, incluindo diárias em hotéis de alto padrão e restaurantes.
O segundo eixo é o das viagens. A PF reuniu indícios de ao menos três viagens internacionais bancadas pelo banqueiro: Paris em abril de 2024, Nova York em maio de 2024 e Courchevel, nos Alpes Franceses, em janeiro de 2025. Na última, segundo a investigação, Vorcaro teria arcado inclusive com a compra de roupas de frio para o senador.

O terceiro eixo concentra o maior peso jurídico. A PF identificou a Emenda nº 11 à PEC 65/2023, apresentada por Ciro Nogueira, que ampliava a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por depositante, como produto direto de uma relação de interesse. O texto parlamentar teria reproduzido “de forma integral” a versão preparada pela assessoria do Banco Master. Mensagens interceptadas mostram Vorcaro afirmando, após a apresentação da emenda, que ela “saiu exatamente como mandei”. Interlocutores do banqueiro avaliaram que a mudança poderia “sextuplicar” os negócios do Master, instituição que já estava sob escrutínio regulatório.
O quarto eixo é patrimonial. A CNLF Empreendimentos adquiriu 30% da Green Investimentos S.A. por R$ 1 milhão, valor que a PF contrasta com uma estimativa de mercado de cerca de R$ 13 milhões para a participação. Para o ministro André Mendonça, a operação é um dos elementos que reforçam a suspeita de vantagem econômica indevida dissimulada em engenharia societária.
O poder que está em jogo
Ciro Nogueira não é um parlamentar periférico. Como ministro-chefe da Casa Civil do governo Bolsonaro de 2021 ao fim de 2022, foi o principal articulador entre o Palácio do Planalto e o Congresso. Como presidente nacional do Progressistas, controla uma das maiores bancadas do Legislativo. No Piauí, seu poder é de natureza distinta: ele distribui prefeituras, indicações, recursos e cargos com capilaridade suficiente para ser chamado de “pai dos prefeitos”. Foi eleito senador pelo estado em 2018 com 57% dos votos válidos e é candidato à reeleição em 2026.
No plano nacional, antes da operação, a aliança entre o PL e o Progressistas estava em estágio avançado. O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, havia classificado Ciro como nome “excelente” para a vaga de vice na chapa de Flávio Bolsonaro à presidência. A operação paralisou essas articulações.
A federação que tremeu
O caso individual se converteu em crise estrutural porque Ciro Nogueira co-preside, ao lado de Antonio Rueda, a federação União Progressista, que reúne 107 deputados, 14 senadores, 5 governadores e, sobretudo, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre. Era a maior bancada da Câmara e a maior força de centro-direita organizada para 2026.
Integrantes do União Brasil passaram a tratar o episódio reservadamente como contágio de CPF, não de CNPJ. Em Minas Gerais, estado com eleição competitiva em 2026, tratativas que passavam por Ciro e por Rueda, envolvendo o governador Mateus Simões (PSD) e o pré-candidato Alexandre Kalil (PDT), entraram em compasso de espera.
Alcolumbre: o nome mais exposto
A situação do presidente do Senado é politicamente a mais explosiva do conjunto. Para chegar à presidência da Casa, Alcolumbre foi apoiado por Ciro Nogueira, descrito pelo próprio Vorcaro como “amigo do peito”. Antonio Rueda também mantém relação de proximidade com o banqueiro.
As decisões institucionais de Alcolumbre no período de expansão das investigações sobre o Banco Master formam uma sequência que, lida à luz do processo, adquire outra dimensão. Ele arquivou o pedido de criação da CPI do Banco Master, barrou a prorrogação da CPI do INSS e decretou sigilo de 100 anos sobre registros de entrada e saída do lobista conhecido como “Careca do INSS”.
O episódio mais direto é relatado pelo jornal O Globo. Segundo a reportagem, Alcolumbre procurou o presidente Lula duas semanas antes da votação que rejeitou a indicação de Jorge Messias ao STF. Na conversa, teria pedido ajuda para se proteger de investigações da PF e de uma possível delação de Vorcaro, afirmando que o conteúdo traria “muitas mentiras e injustiças” sobre ele. Lula respondeu que não controlava as ações da Polícia Federal, do MPF ou do STF.
Em fevereiro deste ano, Alcolumbre e Ciro Nogueira iniciaram negociações para barrar uma comissão parlamentar de inquérito sobre o escândalo financeiro. O bloqueio foi bem-sucedido na ocasião. A operação da PF, agora, relê cada um desses movimentos como parte de um padrão.
2026 e a delação que ainda não veio
A operação impõe custos distintos conforme o ator. Para Flávio Bolsonaro, a relação de proximidade com Ciro, que foi ministro-chefe da Casa Civil de seu pai, deve se converter em alvo recorrente de campanha. Para Tarcísio de Freitas, o embaraço é mais indireto, mas a fragilização do Progressistas como aliado estrutural é real. Para o PT, o caso alimenta a narrativa da “aliança da impunidade” com material concreto.
Ciro apostará, no Piauí, na narrativa de perseguição política em ano eleitoral. Ele já sinalizou essa estratégia publicamente: “Todo ano político é a mesma coisa. Tentam parar de todas as formas quem lidera as pesquisas de intenção de votos. Isso aconteceu comigo em 2018, faltando 15 dias para a eleição, e crescemos 6 pontos na pesquisa.” O eleitorado piauiense é fiel e sensível a esse enquadramento.
O ponto de ruptura real, no entanto, ainda não chegou. Fontes da PF indicam que a proposta de delação premiada de Vorcaro não trouxe informações novas ou relevantes sobre Ciro e que os investigadores avaliam que o banqueiro tenta minimizar seu próprio envolvimento no esquema. Paradoxalmente, isso dá ao senador um fôlego temporário. Se Vorcaro fechar um acordo com informações novas e verificáveis, o quadro muda de patamar. Por ora, a operação é suficientemente grave para paralisar uma candidatura nacional. Ainda não é suficiente, juridicamente, para encerrar uma carreira no Piauí.
The Brow Brasil apurou este material com base na decisão do ministro André Mendonça, em reportagens do jornal O Globo e em análises de fontes políticas e jurídicas consultadas sob reserva.

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