Uma confissão feita em 2007 à revista Quem abre uma janela sobre a vida privada da atriz nos anos 1980, o relacionamento que a formou e a boate que era o epicentro do glamour carioca.
Em 2007, enquanto gravava a novela Sete Pecados, Cláudia Raia concedeu à revista Quem uma entrevista que circula em recortes até hoje. Nela, a atriz descreveu, com precisão cômica, a única vez que fumou maconha: três tragadas num salão de socialites, um colapso identitário no chão da boate e a convicção absoluta de que era uma fruta. O episódio, por si só, seria apenas anedota. Mas ele aponta para um período da vida dela que vale ser reconstituído em profundidade.
A cena, contada por ela
O relato de Cláudia foi direto. Ela estava na boate Hippopotamus, no Rio de Janeiro, acompanhada de Jô Soares, seu namorado da época. A pista era frequentada por socialites que fumavam maconha abertamente, e a pressão do grupo pesou. Ela cedeu. Deu três tragadas, confessou ter ficado “cheia de pose”. O que veio depois: não sabia mais o próprio nome, se enroscou no próprio corpo no chão, saiu rolando pela boate e gritava para as pessoas ao redor que deveriam comê-la, porque ela era uma maçã.
O recorte de revista que circula nas redes comprime o episódio e anota “duas tragadas”. O depoimento original registra três. Não é um detalhe decorativo: é a diferença entre o boato e a fonte.
“Dei três tragos, cheia de pose. Daí que eu não sabia mais meu nome, me enrosquei em mim mesma no chão, saí rolando e gritando para as pessoas me comerem porque eu era uma maçã.” Cláudia Raia, Revista Quem, 2007
O lugar: o que era o Hippopotamus
A boate onde isso aconteceu não era qualquer casa noturna. O Hippopotamus, na Rua Barão da Torre 354, em Ipanema, era a mais exclusiva e seletiva da cidade, aberta apenas a sócios. Inaugurado em 1977, foi a versão carioca de uma grife criada em Nova York e trazida ao Brasil pelo empresário Ricardo Amaral, que já operava a Hippo paulista desde 1974.
Contexto históricoA pista do Hippopotamus era frequentada por Pelé, Roberto Carlos, Gal Costa, Emerson Fittipaldi, Luiza Brunet e figuras internacionais como Margaux Hemingway e Ursula Andress. Cenas da novela Dancin’ Days, de Gilberto Braga, foram filmadas lá em 1978. A casa durou de 1977 até 2001, tornando-se símbolo de uma era de glamour irreproduzível na noite carioca.
Quando Cláudia e Jô Soares estavam por lá, em meados dos anos 1980, o Hippopotamus era o ponto de encontro da elite cultural e econômica do Rio. Fumar maconha naquele ambiente era, à época, um gesto de pertencimento social tanto quanto de transgressão. Não por acaso, ela usou o termo “socialites” para descrever quem estava em volta.
Jô Soares: o homem que a batizou e a formou

Reduzir Jô Soares ao papel de coadjuvante nessa história seria uma distorção. Para Cláudia, ele foi estrutural. O namoro aconteceu entre 1984 e 1986, quando ela tinha em torno de 17 anos e ele, 45. Trinta anos de diferença. Ela já namorava Raul Gazolla quando se apaixonou por Jô nos bastidores do programa Viva o Gordo, da TV Globo.
Em múltiplas entrevistas ao longo das décadas, ela retornou ao tema com a mesma intensidade. Descreveu o início como “conturbado” por conflitos de autoconceito: namorar um homem esteticamente fora dos padrões que ela conhecia, e mais velho do que o filho dele. O relacionamento durou quase três anos e, segundo ela, foi decisivo para a profissional que se tornaria.
“Tudo que eu sou, como artista, como profissional, dentro e fora de cena, eu devo a ele. É um dos grandes amores da minha vida.” Cláudia Raia, documentário Um Beijo do Gordo, Globoplay, 2024
Jô foi além da dimensão romântica: ele literalmente salvou a vida dela. Notou uma pinta suspeita na perna da namorada, insistiu na remoção, levou-a ao próprio médico porque ela “era adolescente, pobrinha, e não tinha condições”. A pinta era um melanoma cancerígeno. Sem intervenção, a estimativa era de que em um ou dois anos ela teria perdido a perna.
O término foi decisão unilateral de Jô. A justificativa que ele deu a ela foi direta e ao mesmo tempo generosa: “Eu não dou conta de ter uma relação mais profunda e duradoura com a mulher que vai ser a maior estrela do país. Não sei lidar com alguém que vai brilhar tanto quanto eu.” Ela sofreu. Quando viu Jô começar a namorar outra mulher de perfil semelhante ao seu, disse que “pirou”.
Foi Jô quem a batizou artisticamente. Antes dele, ela era Maria Claudia Motta Raia. Depois, passou a ser Cláudia Raia. O nome que o Brasil conhece foi criação do homem que estava do seu lado naquela noite no Hippopotamus.
A linha do tempo desse período
1983
Cláudia entra para o programa Viva o Gordo, de Jô Soares, na TV Globo. O contato nos bastidores dará início ao relacionamento.
1984
Início oficial do namoro com Jô Soares. Ela tinha aproximadamente 17 anos; ele, 45. A diferença de 30 anos era assunto público constante. Nesse período ocorre o episódio no Hippopotamus.
1985
Cláudia participa de Roque Santeiro, na Globo, e consolida a carreira como atriz. Mantém o namoro com Jô mesmo após deixar o programa dele.
1986
Término do relacionamento por decisão de Jô Soares. Cláudia descreve o período seguinte como um dos mais difíceis da vida.
2007
Entrevista à revista Quem, durante as gravações de Sete Pecados. Cláudia relata o episódio da maconha pela primeira vez de forma pública e detalhada. O recorte vira material viral retroativamente.
2020
Lança a autobiografia Sempre Raia um Novo Dia, com Rosana Hermann. Retoma os relacionamentos com Jô Soares, Alexandre Frota, Raul Gazolla e Edson Celulari.
2022
Morte de Jô Soares, aos 84 anos, por complicações de pneumonia. Cláudia o define como “legado eterno” e descreve o vazio deixado por ele.
2024
Documentário Um Beijo do Gordo, no Globoplay, traz novos depoimentos de Cláudia sobre o namoro e o impacto de Jô em sua formação artística.
O contexto da confissão: 2007 e Sete Pecados

Não foi por acaso que a entrevista à revista Quem teve esse tom confessional. Em 2007, Cláudia estava no centro de uma das produções mais turbulentas da TV Globo naquela temporada. Sete Pecados, de Walcyr Carrasco, no horário das sete, guardava bastidores densos: a atriz interpretava a vilã Ágatha e tinha o hábito de improvisar falas fora do texto original. Carrasco, conhecido por não aceitar alterações no roteiro, encerrou o personagem de forma literal: Ágatha morreu ao abrir um pacote-bomba.
A atriz, anos depois, registrou arrependimento pelo trabalho na autobiografia: descreveu a experiência como algo em que “nada deu muito certo” e criticou o excesso de personagens e a confusão na escalação. Essa tensão de bastidor jogava junto com o tom da entrevista publicada na Quem, que misturava revelações pessoais com a divulgação do trabalho na novela.
O que o episódio revela além do anedotário
O recorte que circula trata o episódio como curiosidade cômica, e ele funciona bem nesse registro. Mas lido dentro do período em que ocorreu, o episódio no Hippopotamus é também um retrato de classe, de geração e de um Brasil específico. Uma garota de 17 anos, pobre por suas próprias palavras, inserida de repente num salão de socialites de Ipanema pela força de um namoro com o apresentador mais famoso do país. A maconha era o ritual de ingresso num mundo que não era o dela, e o colapso na pista foi, talvez, a metáfora mais honesta possível sobre o que acontece quando alguém tenta performar um pertencimento que ainda não consolidou.
Ela saiu dali com o nome artístico que carrega até hoje, uma carreira construída sob o olhar de Jô, e a história de uma noite que ninguém esquece. Nem ela.
Fontes Revista Quem (2007) · Jornal de Brasília, reprodução da entrevista original, 4 jul. 2007 · Documentário Um Beijo do Gordo, Globoplay/GNT, jul.-ago. 2024 · CNN Brasil, “Cláudia Raia fala sobre fim de relacionamento com Jô Soares”, jul. 2024 · Metrópoles, “Claudia Raia recorda namoro com Jô Soares e revela motivo do término”, abr. 2026 · O Antagonista/TV Pop, “Claudia Raia revela motivo do fim de namoro com Jô Soares”, abr. 2026 · Diário do Nordeste, “Jô Soares e Cláudia Raia namoraram, mas diferença de idade atrapalhou relação”, ago. 2022 · Observatório dos Famosos, “Sete Pecados: bastidores da novela mais problemática de Walcyr Carrasco”, nov. 2023 · AdoroCinema, “7 vezes em que Walcyr Carrasco se irritou com atores”, jan. 2026 · Jornal do Brasil, “Os bons tempos da boate Hippopotamus voltaram”, mai. 2009 · Metrópoles, “A noite do Rio vai brilhar com a reabertura do Hippo de Ricardo Amaral”, mar. 2017 · Autobiografia Sempre Raia um Novo Dia, Claudia Raia e Rosana Hermann, HarperCollins Brasil, 2020

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