Em menos de dois meses no comando da Casa do Patrão, Leandro Hassum confundiu o próprio programa com o concorrente, errou o nome do patrocinador oficial e precisou ser corrigido ao vivo pela Disney. por trás do riso fácil e da simpatia ensaiada, o que se vê é um homem tentando atuar um papel que ainda não decifrou, e a televisão, implacável, não perdoa hesitação.
A estreia foi em 27 DE ABRIL, criação de Boninho, transmissão simultânea pela Record e pelo Disney mais, dezoito participantes, promessa de prêmio milionário. Hassum entrou sorrindo, como sempre entrou em tudo na carreira, com a confiança de quem já decorou o roteiro da própria simpatia. Mas em menos de uma semana o roteiro virou armadilha. ao encerrar o episódio de estreia, ele anunciou o programa errado na sequência da grade. DESCULPE, NÃO É O JORNAL DA RECORD, VOCÊ VAI FICAR COM CHICAGO FIRE, disse, visivelmente constrangido, enquanto a prova daquela noite nem havia sido concluída no ar. O segundo deslize veio do vocabulário, não da memória. Hassum chamou o cargo central do jogo de LÍDER, termo que pertence ao Big Brother Brasil, da Globo, concorrente direto da atração que ele apresenta. na Casa do Patrão a função se chama PATRÃO. a confusão se repetiu mais de uma vez nas semanas seguintes, e cada repetição funcionou como um lapso freudiano transmitido em rede nacional, a língua entregando o que a vontade talvez já soubesse, que o lugar ainda não era inteiramente seu.

O terceiro episódio é o que mais expõe a engrenagem comercial da televisão. Hassum se referiu à plataforma de streaming que exibe o programa vinte e quatro horas como DISNEY PLAY. o erro se repetiu por dias até a própria Disney enviar um direito de resposta, lido por ele ao vivo na noite de 8 DE MAIO. antes de ler o texto, tentou disfarçar o desconforto no tom de quem transforma punição em piada, como se a bronca do patrocinador fosse prova de audiência e não de descuido. A crítica especializada não foi mais gentil que o patrocinador. a colunista Anna Luiza Santiago, do jornal O Globo, deu NOTA ZERO ao desempenho do apresentador, apontando falta de jogo de cintura, de energia e de emoção na condução das eliminações, justamente o que se espera de quem precisa decidir o destino de pessoas confinadas diante de milhões de telespectadores. A pressão produziu, em 18 DE MAIO, o quinto e mais revelador momento. Hassum quebrou o roteiro para agradecer publicamente a Boninho, dizendo que não adiantava reclamar com ele e que o criador havia ensinado o Brasil a gostar de reality. o discurso, espontâneo ou não, funcionou como confissão. quem precisa declarar lealdade ao vivo geralmente já sente o chão se mover sob os próprios pés. dias depois, nas redes, o nome de Dudu Camargo, que participou de uma dinâmica como convidado, passou a circular como sugestão de substituto, o tipo de comentário que normalmente não nasce do nada. Há algo de estrutural nesse desconforto que ultrapassa o talento individual de Hassum. comediante de carreira sólida, ele construiu seu nome na liberdade da improvisação, onde o erro pode ser transformado em piada sem custo. a apresentação de um reality ao vivo exige o oposto, precisão cronométrica, memória de roteiro, autoridade sobre o jogo. é a diferença entre comandar uma plateia que perdoa e comandar uma audiência que vota, julga e cancela em tempo real. o Brasil já viu esse choque antes, em outros nomes que vieram do humor para a condução de realities e que precisaram aprender, sob holofote e sem ensaio, que rir do próprio erro só funciona até a segunda ou terceira vez. O que fica, passada a sequência de gafes, não é apenas o constrangimento episódico, mas a pergunta que a própria audiência já começou a fazer em voz alta, sobre quem, de fato, manda na Casa do Patrão quando o homem que deveria comandar o jogo ainda está, ele mesmo, tentando descobrir as regras.

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