Um deputado médico filma o parto de uma desconhecida. Um delegado converte operações policiais em conteúdo de campanha. Entre o hospital e a delegacia, a fragilidade humana virou capital eleitoral. A fronteira entre prestar contas e fazer campanha nunca esteve tão apagada. A câmera, nunca tão ligada. Existe um instante exato em que o sofrimento alheio deixa de ser uma urgência e passa a ser uma oportunidade. No Piauí, esse instante foi gravado, legendado e publicado. A cena se repete com variações. Numa, uma mulher do Maranhão dá à luz dentro de uma ambulância e o registro do nascimento vira postagem de um deputado em pré campanha. Noutra, operações que deveriam tramitar sob sigilo se transformam em material para colaborações com influenciadores. Mudam os corpos, mudam os cenários. A lógica é uma só. Transformar a vulnerabilidade em palanque, e o palanque em voto.
ENTENDA O ESPETÁCULO COMO MÉTODO
Guy Debord descreveu, em 1967, uma sociedade em que tudo o que era vivido diretamente se afastava numa representação. O espetáculo, segundo ele, não seria um amontoado de imagens, mas uma relação social mediada por elas. O que o filósofo francês talvez não imaginasse é que o próprio Estado, a máquina que deveria mediar a vida coletiva, se tornaria um dos maiores produtores de imagens de si mesmo. No Piauí do interior, essa profecia ganhou endereço, distintivo e jaleco. A política contemporânea internalizou uma gramática nova. Byung Chul Han, o pensador que diagnosticou a sociedade da transparência, observa que, na economia da atenção, aquilo que não é exibido simplesmente não existe. Daí a compulsão. Não basta cuidar do paciente, é preciso ser filmado cuidando. Não basta investigar o crime, é preciso transmitir a investigação. O ato de governar se dissolve no ato de aparecer.
O HOSPITAL DE URUÇUÍ

O juramento médico repousa sobre três pilares. O sigilo, a ética e o cuidado. Foi contra os três que pesou o vídeo publicado pelo deputado estadual e médico Dr. Gil Carlos (PT). No Hospital Regional Dirceu Arcoverde, em Uruçuí, referência para todo o extremo sul do Piauí, o parlamentar gravou e divulgou o atendimento a uma gestante vinda do Maranhão, cujo bebê nasceu ainda na ambulância. A legenda traduzia o tom. “Cuidar de vidas sempre será uma missão”. O protagonista do enquadramento, porém, não era o hospital, nem a paciente. Era o político. A unidade convive com desafios históricos de estrutura, escassez de especialidades e demanda crônica por investimento. Como o deputado integra a base política do governo do Estado, a publicação levanta a pergunta que ele não fez. Por que uma emergência obstétrica virou conteúdo de rede social, e não pauta de cobrança por melhorias? O vídeo não denuncia. Não anuncia recursos. Não propõe solução. Apresenta apenas a si mesmo.
As perguntas se acumulam e nenhuma encontra resposta. Qual o interesse público concreto que justificou filmar e divulgar aquele atendimento? Houve autorização formal da paciente e da família para expor a imagem de uma mulher e de um bebê em situação de extrema fragilidade? Se a intenção era zelar pela saúde, por que a postagem nada diz sobre as carências da unidade? Quantas emendas, quantos projetos, quantas cobranças institucionais o parlamentar dedicou ao hospital nos últimos anos? Por que conteúdos assim, antes raros em seu perfil, floresceram justamente na antessala da campanha? Onde termina a prestação de contas e onde começa a edificação da imagem?
Michel Foucault ensinou que o poder moderno se exerce sobre os corpos. O corpo da parturiente, transformado em cenário, deixa de ser o sujeito do cuidado para virar adereço de uma narrativa que não lhe pertence.
A VIATURA
Se na saúde a ética é atropelada pelo engajamento, na segurança pública o atropelamento esbarra na lei. O caso do delegado Charles Pessoa, titular da DRACO, expõe o uso da estrutura do Estado a serviço de um projeto pessoal de poder. A situação chegou a tal ponto que o Ministério Público do Piauí, por meio do seu Grupo de Atuação Especial de Controle Externo da Atividade Policial, precisou intervir, com uma recomendação para conter o que virou show. Um delegado que expede ordens de serviço, ostenta distintivo e mobiliza viatura para produzir colaborações com influenciadores e inflar suas redes como pré candidato cruza uma fronteira que não é apenas estética. É jurídica.

O Ministério Público foi didático ao recordar o óbvio. A publicidade dos atos do poder público tem caráter educativo, jamais promocional, como manda o artigo 37 da Constituição. A Lei nº 13.869, de 2019, veda submeter presos e investigados à curiosidade pública, e o constrangimento gratuito de quem está sob custódia para gerar curtidas se inscreve exatamente nesse perímetro. E, no caso de quem pretende disputar eleição, o uso do aparato estatal como amplificador configura vantagem competitiva financiada com dinheiro público. Há um nome técnico para o que se passa. Pierre Bourdieu o chamaria de conversão de capital. O capital institucional do delegado, erguido com autoridade delegada e recursos públicos, é silenciosamente transferido para a conta do capital político, ativo privado a ser sacado na urna. O distintivo deixa de ser instrumento de investigação e vira logotipo de campanha.
AS DUAS MÃOS DO ESTADO
O que une o bisturi e a viatura é mais profundo do que a coincidência geográfica. Há na sociologia a imagem das duas mãos do Estado. A mão que cuida, ligada à saúde, à educação, à assistência, e a mão que pune, ligada à polícia e ao controle. No Piauí, as duas mãos largaram seus instrumentos e pegaram a mesma coisa. O celular. A mão que deveria segurar o bisturi e a mão que deveria segurar a algema agora seguram, ambas, a câmera. E ambas apontam para o mesmo lugar, o próprio rosto de quem governa. Por trás da tela, opera algo bem mais antigo que a tela. Jessé Souza descreve uma elite que nunca aprendeu a separar o público do privado, que trata o cargo como propriedade herdada e a máquina pública como extensão do sobrenome. O smartphone não criou essa confusão. Apenas lhe deu uma interface nova e um alcance inédito. No plano íntimo, vigora o que Maria Rita Kehl nomeou de espetáculo do eu, a montagem incessante de uma imagem de si destinada ao olhar do outro. O político para de governar para o cidadão e passa a performar para o seguidor. O eleitor de carne e osso é substituído pela métrica.
O custo desse arranjo não aparece na legenda. Quem o paga é o cidadão comum, reduzido a figurante. A mãe sobre a maca, o custodiado na operação, o paciente que esperava um leito e ganhou uma plateia. Mostrar o trabalho à sociedade é dever de quem ocupa cargo público. Transformar o Estado em agência de marketing pessoal é desvio de finalidade. Entre uma coisa e outra existe uma linha, e ela anda sendo pisada com naturalidade preocupante. Talvez a pergunta que reste não seja sobre a vaidade de um deputado ou a ambição de um delegado. Seja sobre o que acontece com uma sociedade quando o cuidado precisa de plateia para existir e a autoridade só se reconhece diante do próprio reflexo. Numa terra que convive com carência histórica na saúde e cobra seriedade na segurança, a população talvez esteja pedindo, no fundo, algo simples. Menos câmera. E o direito de não descobrir, deitada numa maca, que entrou em cena.


Fontes: Ministério Público do Piauí. Publicações oficiais dos citados em redes sociais.
O núcleo de jornalismo e comunicação mantém todos os canais abertos para a resposta e o posicionamento oficial dos citados diante das perguntas levantadas nesta matéria. Até aqui, o que chega à sociedade são ações sem proposta de melhoria, exposição injustificada de cenas corriqueiras das redes hospitalar e policial. Nas opções de contato deste site estão todos os endereços para o envio de notas oficiais.

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