A 5ª Turma Cível do TJDFT negou por unanimidade o recurso de MICHELLE BOLSONARO para tirar do ar os vídeos em que JOICE HASSELMANN a ataca, e a distância entre essas duas coisas é o coração da decisão. Um tribunal pode garantir que um vídeo continue no ar. Não pode garantir que o que ele diz seja verdade. A confusão entre essas duas coisas move a política brasileira faz tempo. Existe uma vitória que não prova nada e uma derrota que não condena ninguém. A decisão da 5ª TURMA CÍVEL do TJDFT, que no dia 15 DE ABRIL negou por UNANIMIDADE o recurso de MICHELLE BOLSONARO, é exatamente isso: uma e outra ao mesmo tempo. Os vídeos em que JOICE HASSELMANN ataca a antiga primeira dama continuam disponíveis. Isso não significa que JOICE esteja certa. Significa apenas que, neste país, calar alguém à força exige muito mais do que ofensa. O caso é simples na origem e denso nas implicações. MICHELLE pediu à Justiça a remoção imediata do conteúdo, antes mesmo de discutir o mérito, e uma indenização de R$ 30 MIL por danos morais. A 16ª Vara Cível de Brasília negou a urgência. Ela recorreu. A relatora, desembargadora MARIA LEONOR LEIKO AGUENA, manteve a negativa e foi acompanhada pelas demais magistradas da turma. O voto cabe numa frase: silenciar críticas a figuras públicas é tarefa reservada a casos extremos de discurso de ódio ou desinformação flagrante, e não foi isso que o tribunal enxergou ali nesta fase. O que JOICE disse é pesado, e é dela. Em entrevista ao Content Podcast, a mulher que já foi uma das vozes mais altas do bolsonarismo chamou MICHELLE de amante e de santinha do pau oco, e afirmou que seu passado seria mais sujo do que pau de galinheiro. Foi além: sustentou que a antiga primeira dama teria se envolvido com JAIR BOLSONARO quando ele ainda era casado com ANA CRISTINA VALLE. São acusações. O tribunal não as confirmou nem as desmentiu. Apenas decidiu que, enquanto o processo corre, elas não serão apagadas pela força de uma liminar. Aqui mora o que o caso de fato revela. MICHELLE BOLSONARO não construiu poder sobre cargos ou discursos, mas sobre uma imagem: a esposa devota, a evangélica de fé inabalável, a família conservadora erguida como projeto moral. Quando o ativo central de alguém é a pureza, qualquer dúvida sobre o passado não fere o orgulho, fere o patrimônio. Por isso a pressa pela remoção. Nunca foi sobre uma ofensa. Foi sobre a defesa de um capital que depende inteiramente de não ser contestado.


E há o outro lado da equação, que é JOICE. Nenhum inimigo é mais perigoso do que o antigo crente. Ela defendeu o bolsonarismo com a mesma intensidade com que hoje o ataca, e essa intimidade de outrora é justamente o que dá peso às suas palavras. Quem rompe carrega a aura de ter visto por dentro. A política brasileira conhece bem essa figura: o aliado que vira algoz, o convertido que vira herege, aquele que troca a fé pela revanche e transforma o que sabia em arma. O passado compartilhado é a munição mais barata e mais letal que existe. A ironia não passa despercebida. O movimento que fez da palavra censura um grito de guerra agora tem uma de suas figuras mais reverenciadas batendo à porta do Judiciário para silenciar uma crítica, e perdendo justamente em nome da liberdade de expressão. O tribunal devolveu ao debate público aquilo que ele tem de mais incômodo: o direito de ser barulhento, injusto, áspero. Decidir o que é verdade não cabia ali. Cabia apenas decidir que ninguém seria calado antes da hora. O processo de indenização ainda vai correr, e talvez um juiz diga, um dia, se houve dano e quanto ele vale. Mas existe uma pergunta que nenhum tribunal julga. Se MICHELLE foi ou não aquilo que JOICE diz que ela foi, isso não se resolve numa vara cível. Pertence a outro foro, o da memória pública, que nunca encerra o expediente e nunca bate o martelo. Os vídeos ficam. A dúvida também.

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