quarta-feira, 28 de outubro de 2026
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O CERRADO QUE COBRA SUA CONTA

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Foto · @obrowbrow | REVISTA The BrOW Brasil

ENQUANTO CORNÉLIO ADRIANO SANDERS E O GRUPO PROGRESSO ENFRENTAM INVESTIGAÇÃO NO TJ-PI, O MATOPIBA DEVORA O BIOMA MAIS RICO E AMEAÇADO DO BRASIL, TRANSFORMANDO SAVANA VIVA EM FRONTEIRA DE COMMODITIES QUE AGORA ANUNCIA SEU PRÓPRIO LIMITE.

O Cerrado brasileiro, berço das águas que alimentam oito das doze grandes bacias hidrográficas do país, chega a um ponto de ruptura visível. Em 2024, perdeu 652 MIL HECTARES de vegetação nativa. O MATOPIBA, Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, concentrou cerca de 75% dessa devastação. No centro dessa expansão está o caso de CORNÉLIO ADRIANO SANDERS, fundador do GRUPO PROGRESSO, cuja investigação criminal por supostas fraudes em registros de terras no Piauí foi mantida pelo Tribunal de Justiça do Piauí. Um símbolo concreto de um modelo que avança sobre o território como se ele fosse infinito.

A cena que se desdobra

O que começou como uma operação de regularização fundiária no Cerrado piauiense tornou-se um espelho nacional. SANDERS, imigrante holandês que construiu um patrimônio superior a R$ 2 BILHÕES, representa o sonho realizado do agronegócio na nova fronteira. Suas dezenas de milhares de hectares incorporados ao cultivo de soja, milho e algodão são parte da mesma onda que transformou o MATOPIBA na principal área de expansão agrícola do século XXI no Brasil.

Porém, cada hectare convertido carrega uma conta silenciosa: perda de biodiversidade endêmica, redução drástica da evapotranspiração, emissões de carbono e enfraquecimento dos rios voadores que regulam o regime de chuvas em todo o país. O bioma, que já perdeu metade de sua cobertura original desde os anos 1950, sustenta cada vez mais fragilmente o próprio sistema produtivo que o substitui.

O psiquismo de uma nação em negação

Psicologicamente, o Brasil vive um recalque profundo diante do Cerrado. A savana é historicamente vista como “terra pobre” ou “vazio produtivo”, o que permite ao empreendedor projetar sobre ela sua fantasia de conquista e ascensão ilimitada. CORNÉLIO ADRIANO SANDERS encarna esse arquétipo: o homem que transforma o que outros consideravam inútil em império econômico.

Essa narrativa coletiva mascara um desejo voraz de domínio e uma angústia da escassez. O gozo da produtividade esconde o trauma da perda da memória dos territórios, das comunidades tradicionais, quilombolas e indígenas que conviviam com o bioma. O inconsciente social sente a tensão. As secas mais longas, os rios com vazão reduzida e o calor crescente já sussurram que a negação tem limite. O progresso celebrado hoje gera, no fundo, uma inquietação difusa: a sensação de que estamos devorando nosso próprio chão.

A filosofia do território mercantilizado

Filosoficamente, o que ocorre no MATOPIBA é a consumação de uma ontologia neoliberal radical: a terra deixa de ser sistema vivo, relacional e pluriversal para se tornar puro recurso biopolítico. O CERRADO é reduzido a estoque de solo corrigível, carbono liberável, água capturável e commodity exportável.

Nesse regime de visibilidade, a produtividade justifica tudo. Decisões judiciais que separam a esfera cível da criminal, como no caso Sanders, ilustram essa lógica: o presente econômico tende a apagar perguntas sobre a origem da posse. A ambição humana tenta minimizar os limites naturais. Mas a natureza opera em outra escala. Ela não reconhece títulos de propriedade.

A sociologia de uma fronteira que se esgota

Sociologicamente, o MATOPIBA reproduz um padrão histórico brasileiro de ocupação assimétrica. Grandes capitais concentram poder, tecnologia e terra, convertendo-a em riqueza global. O modelo gera empregos, arrecadação municipal, infraestrutura e divisas. No entanto, aprofunda a concentração fundiária, desloca modos de vida tradicionais e externaliza os custos ambientais para a sociedade como um todo.

CORNÉLIO ADRIANO SANDERS não é exceção nem vilão isolado. É expressão de uma estrutura onde o capital simbólico do “produtor que fez dar certo” legitima o avanço. Enquanto isso, o bioma paga a conta com perda de serviços ecossistêmicos essenciais. O Brasil, que se consolida como potência agroexportadora, negocia sua imagem internacional sobre um território que dá sinais claros de exaustão.

O veredito que não será minimizado

O foco permanece no Cerrado e no modelo que o consome. Mas a natureza guarda a última palavra. O EL NIÑO previsto para se fortalecer ainda em 2026 virá como resposta implacável ao que o dinheiro, o poder e a ambição insistem em minimizar. Não aceitará narrativas de “custo do desenvolvimento”. Trará calor extremo, chuvas irregulares, secas prolongadas e impactos diretos sobre a produtividade agrícola que hoje se ergue sobre o que restou do bioma.

O CERRADO segue sendo arado. A conta, porém, está sendo emitida em linguagem que nenhum habeas corpus ou decisão cível poderá suspender. Quando o fenômeno chegar, revelará com precisão cirúrgica a fragilidade de um progresso construído sobre a negação dos limites do território.

O Brasil está diante de um espelho incômodo. A questão não se fecha. Ela se aprofunda. E o leitor, ao final desta leitura, carrega agora a inquietação necessária: até onde iremos antes que o próprio território responda?

RB

Redação The Brow Brasil

Redação The Brow Brasil, jornalismo, investigação e cultura.

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