segunda-feira, 29 de junho de 2026
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RAFAEL FONTELES INAUGUROU FLORIANO 103 VEZES E NÃO ENTREGOU UM CHUVEIRO AO HOSPITAL REGIONAL TIBÉRIO NUNES

13 min de leitura Verificado Atualizado em

Foto · @obrowbrow | The BrOW Brasil

No dia 18 de maio o governo do Piauí celebrou 115,4 milhões de reais aplicados em Floriano, com quase 40 milhões alocados na rubrica saúde, enquanto a equipe assistencial do hospital de referência regional denuncia colapso estrutural à organização social sediada no Rio de Janeiro contratada para administrar a unidade

O hospital virou índice e o índice virou veredito sobre a técnica contemporânea de governar a saúde pública brasileira como peça de palanque

O texto que o Governo do Estado do Piauí depositou no portal oficial PI.GOV.BR em 18 DE MAIO DE 2026, assinado pela Redação Secom e atualizado às dezesseis horas e trinta e dois minutos do mesmo dia, é uma peça que merece ser lida em dois registros simultâneos. Como documento, anuncia 103 obras executadas ou em andamento no município de Floriano, somando 115,4 milhões de reais em recursos estaduais, com 72 obras já concluídas e outras 31 seguindo em execução. Como sintoma, oferece o retrato mais limpo da técnica que o Brasil contemporâneo aprendeu a confundir com gestão. Na rubrica saúde, o release crava mais de 39 milhões de reais aplicados, com 7,1 milhões para a ampliação do Hospital Regional Tibério Nunes e implantação de 80 novos leitos de internação, mais 500 mil reais no Hemocentro Regional e a obra em andamento da unidade de atenção especializada em saúde estimada em 31,4 milhões. Os números avançam como uma escultura de propaganda. Cada algarismo é uma vitrine. Cada vitrine é um teto. 

A apenas DOIS MINUTOS E CATORZE SEGUNDOS de distância desse discurso, dentro do mesmo município, dentro do mesmo HOSPITAL REGIONAL TIBÉRIO NUNES anunciado no parágrafo anterior, a equipe assistencial filma outra coisa. Não há chuveiro para o banho de paciente acamado. Não há insumo de rotina. Não há a infraestrutura mínima de dignidade que sustenta o trabalho da enfermagem e da medicina. Não se trata de episódio. Não se trata de pontualidade. Trata-se de uma rotina administrada por uma ORGANIZAÇÃO SOCIAL DE SAÚDE com sede no Rio de Janeiro contratada por contrato de gestão firmado com a SECRETARIA DE ESTADO DA SAÚDE DO PIAUÍ, a SESAPI, que segundo a própria equipe assistencial recebe DIARIAMENTE denúncias formais e informais e segue operando como se o silêncio do gabinete fosse uma forma de autorização.

A distância entre o release e o leito não é falha de comunicação. É método. Quando um governo descobre que a inauguração rende mais voto do que o cuidado, a inauguração vira o cuidado. O ato público substitui o ato clínico. O corte de fita ocupa o lugar do curativo. Há, nessa operação, um gozo administrativo que não se enxerga sozinho. O gestor inaugura, fotografa, indexa, publica e sente que entregou. Sente, com sinceridade subjetiva, que cumpriu. O paciente sangra, mas o gestor não vê o sangue porque o sangue não está no release. O recalque é coletivo, é institucional, é eleitoral. Em pré-campanha, esse recalque ganha calendário, métrica, hashtag, fotógrafo de gabinete. O governador RAFAEL TAJRA FONTELES, do Partido dos Trabalhadores, em ano de busca pela reeleição, fala em qualidade de vida da população enquanto a qualidade da vida que ele governa precisa de um ofurô improvisado para o banho do leito.

Há ainda uma operação mais delicada, que opera abaixo da consciência política do leitor. Quando o cidadão de FLORIANO recebe pela enésima vez a notícia de que sua cidade foi contemplada com obras, ele aprende a desejar a obra antes de exigir o cuidado. O orçamento se desloca para o concreto porque o concreto se fotografa, e a fotografia se compartilha, e o compartilhamento volta como capital simbólico para o palanque. A saúde, que não cabe na imagem porque é processo, escapa do campo visual da política. O resultado é uma pedagogia silenciosa: o cidadão pobre do interior nordestino aprende a se contentar com a inauguração da praça, com o asfalto novo, com a urbanização da horta comunitária, e desloca para um futuro que nunca chega a exigência mínima de um banheiro no hospital onde vai morrer. Esse deslocamento é a violência mais elegante do nosso tempo.

Filosoficamente, o que se opera ali é a substituição do real pelo regime de visibilidade do real. A obra anunciada existe mais do que a obra entregue. A obra entregue existe mais do que a obra funcional. A obra funcional existe mais do que a obra que cuida. Em cada degrau dessa escada, perde-se um pedaço de corpo concreto. No último degrau, há um paciente sem chuveiro, e o paciente sem chuveiro é um dado que o release não registra porque o release foi escrito para que esse dado nunca exista. Trata-se de uma ontologia administrativa em que o que não foi publicado não aconteceu. O hospital sem banheiro não é mentira do governo. É verdade que o governo decidiu não enxergar. A diferença é decisiva. A primeira hipótese poderia ser refutada com um documento. A segunda só pode ser desativada com a presença obstinada do jornalismo, da auditoria e do Ministério Público dentro do prédio, no plantão, no horário em que a propaganda dorme.

Sociologicamente, o caso de Floriano não se sustenta sem o modelo de terceirização da gestão hospitalar pública brasileira. O HOSPITAL REGIONAL TIBÉRIO NUNES, registrado no CNPJ 06.553.564/0103-62, está formalmente subordinado à Sesapi, mas sua operação cotidiana é executada por uma OSS com sede no Rio de Janeiro dentro do regime jurídico das organizações sociais de saúde que se espalhou pelos estados a partir dos anos noventa. Esse regime separou, com elegância contábil, a responsabilidade política da responsabilidade operacional. Quando o paciente sofre, a Sesapi diz que a OSS executa. Quando a OSS é cobrada, a OSS diz que o repasse atrasa, que o contrato é apertado, que a estrutura é antiga. Quando o orçamento é cobrado, o governo apresenta o release de 115,4 milhões. O cidadão fica preso num triângulo de transferência de culpa em que cada vértice produz uma narrativa que blinda o vértice seguinte. O eixo RIO–TERESINA, nesse arranjo, não é geográfico. É contratual. É a engenharia pela qual a saúde pública do Piauí se ancora a um capital simbólico e administrativo extraestadual cuja prestação de contas é, na prática, escrita pelas próprias mãos que recebem o repasse.

O que torna o caso de Floriano juridicamente insustentável é que os órgãos de controle já documentaram o que o vídeo de 2:14 apenas mostra em carne. O Tribunal de Contas do Estado do Piauí, o TCE-PI, concluiu em novembro de 2025 a auditoria TC/005653/2025, da Divisão de Fiscalização da Saúde, que apontou deficiências relevantes e fragilidades estruturais no gerenciamento de bens públicos conduzido pela Secretaria de Estado da Saúde do Piauí e pelas diversas Organizações Sociais de Saúde contratadas para gestão de hospitais estaduais, com fiscalização incluindo expressamente o Hospital Regional Tibério Nunes, em Floriano. O Conselho Regional de Medicina do Piauí, o CRM-PI, em vistoria registrada em sua coordenadoria de fiscalização, encontrou no próprio Tibério Nunes vinte e cinco irregularidades e formulou trinta e uma recomendações, entre as quais falta de medicamentos, falta de mecanismos de proteção em janelas, falta de privacidade de pacientes e a constatação inesperada de presença de animais como gatos circulando pela unidade. O Ministério Público do Estado do Piauí, por meio da 1ª Promotoria de Justiça de Floriano e do Centro de Apoio Operacional de Defesa da Saúde, com as promotoras GIANNY VIEIRA DE CARVALHO e KARLA DANIELA FURTADO MAIA CARVALHO, solicitou formalmente informações sobre possíveis irregularidades na fila de regulação de pacientes internados no HRTN. O sintoma virou processo. O processo virou auditoria. A auditoria virou parecer. O parecer virou gaveta. E o paciente continua sem onde se lavar. 

A responsabilidade tem cinco assinaturas. A primeira é a do governador RAFAEL FONTELES, do PT, chefe do Executivo estadual, pré-candidato à reeleição em 2026, autor político da peça publicitária que abre esta matéria. A segunda é a do secretário estadual de Saúde DIRCEU HAMILTON CORDEIRO CAMPÊLO, médico hematologista, empossado em fevereiro de 2026 após anos como superintendente de Média e Alta Complexidade da Sesapi e mais de uma década de atuação no Hospital Albert Einstein de São Paulo, agora obrigado a explicar por que o sistema que ele comanda permite que o hospital de referência regional do sul do estado opere sem o equipamento sanitário mais básico da arquitetura hospitalar moderna. A terceira é da própria SESAPI, CNPJ 06.553.564/0001-38, signatária do contrato de gestão com a OSS carioca e responsável legal pela fiscalização do contrato que ela mesma assinou. A quarta é da OSS de origem fluminense, cujo nome e CNPJ a redação do The Brow Brasil segue confirmando junto às fontes internas para publicação na sequência editorial desta investigação. A quinta é do prefeito de Floriano, ANTÔNIO REIS, do PSD, reeleito em outubro de 2024 com 54,68 por cento dos votos válidos, totalizando 19.200 votos, cuja Secretaria Municipal de Saúde divide com o estado a responsabilidade pela regulação dos pacientes que entram e saem do prédio, e cujo silêncio diante da degradação da unidade de retaguarda regional é, em si, uma escolha política. 

Se Floriano fosse um caso isolado, a matéria poderia terminar aqui. Não é. O município é, dentro do mapa de governo de Rafael Fonteles, uma das cinco cidades contempladas pelo ORÇAMENTO PARTICIPATIVO DIGITAL, ao lado de Teresina, Parnaíba, Picos e Piripiri, e funciona como vitrine do projeto político da gestão estadual no sul do estado. É justamente por ser vitrine que o caso adquire densidade nacional. A pergunta que escapa do município e se instala como questão de país é simples e devastadora. Se na cidade escolhida para ser vitrine o hospital de referência regional opera sem chuveiro para o banho do paciente, o que se passa nas cidades que sequer entraram no release? O sul do Piauí inteiro pendura sua urgência no Tibério Nunes. Cidades como JERUMENHA, ITAUEIRA, PAVUSSU, RIO GRANDE DO PIAUÍ, RIBEIRA DO PIAUÍ, GUADALUPE e CANTO DO BURITI mandam para Floriano os casos que suas estruturas mínimas não comportam. Quando o Tibério Nunes desfalece, é uma região inteira do semiárido brasileiro que perde o último anteparo sanitário antes do voo de oitocentos quilômetros até Teresina ou da viagem incerta até a capital vizinha em outro estado.

Há aqui uma topografia política que precisa ser nomeada. O interior nordestino é, no atual desenho federativo da saúde pública, território de teste para uma forma de governo que se sustenta na assimetria de visibilidade. O que acontece em Floriano não pauta o Jornal Nacional, não vira manchete em São Paulo, não disputa atenção com a polarização federal. Essa invisibilidade midiática é convertida em margem operacional. O governo estadual pode anunciar 115 milhões sabendo que a verificação ponto a ponto desse anúncio é improvável. A OSS pode receber repasse sabendo que a fiscalização cotidiana é frágil. O prefeito pode silenciar sabendo que sua reeleição foi consolidada em 2024 e que o ciclo eleitoral local só volta em 2028. O paciente, esse, não tem ciclo. Tem dia, tem noite, tem febre, tem alta, tem óbito. E não tem chuveiro.

A camada mais inquietante deste caso, porém, não é administrativa. É afetiva. O profissional de saúde do TIBÉRIO NUNES que filma o vídeo de 2:14 não está fazendo militância política. Está documentando o esgotamento de uma vocação. Há um luto silencioso na enfermagem brasileira que nenhuma matéria ainda conseguiu capturar inteiro. É o luto de quem entrou no SUS para cuidar e descobre, com o passar dos plantões, que está sendo usado para sustentar uma encenação em que o próprio cuidado é dispensável. A indignação do enfermeiro de Floriano não pede chuveiro apenas para o paciente. Pede chuveiro para sua própria possibilidade de continuar sendo enfermeiro. Quando a estrutura é retirada do profissional, o profissional é forçado a optar entre dois tipos de morte simbólica: aceitar a degradação e perder a si mesmo, ou denunciar e correr o risco de retaliação dentro do contrato precarizado em que ele opera. A coragem de filmar é, portanto, mais política do que o release de cem páginas que o governo publicará amanhã.

Resta entender por que o Estado do Piauí, comandado por um governador de esquerda que se elegeu prometendo cuidado, opera neste momento sob a lógica da gestão de simulacro. A resposta não é pessoal. Não interessa demonizar RAFAEL FONTELES como sujeito. Interessa entender que o regime de governabilidade brasileiro contemporâneo, em qualquer cor partidária, descobriu na inauguração serial um analgésico eleitoral barato, fotogênico e politicamente low risk. O custo desse analgésico é depositado nos lugares e nas pessoas que não têm câmera. O TIBÉRIO NUNES é uma dessas pessoas, em forma de prédio. Floriano é uma dessas pessoas, em forma de cidade. O sul do Piauí é uma dessas pessoas, em forma de região. E o Brasil, esse, é o nome coletivo do desvio entre o que se anuncia e o que se cuida.

O vídeo tem 2 minutos e 14 segundos. O release oficial tem 115,4 milhões de reais. Entre uma duração e uma cifra existe uma cidade inteira a ser explicada. Enquanto a Sesapi não nomear publicamente a OSS responsável, enquanto o secretário DIRCEU CAMPÊLO não pisar no plantão noturno do TIBÉRIO NUNES sem aviso prévio, enquanto o governador RAFAEL FONTELES seguir tratando a saúde como capítulo do balanço e não como obrigação cotidiana, enquanto o prefeito ANTÔNIO REIS preferir o silêncio ao confronto institucional com o estado, enquanto o TCE-PI converter sua auditoria em recomendação e a recomendação em arquivo, o paciente do sul piauiense continuará tomando banho no improviso, na bacia, na compaixão da enfermeira que carrega um balde, na coragem do técnico que improvisa um chuveirinho com a mangueira que sobrou da limpeza. É nesse balde que mora hoje a verdade política do PIAUÍ. Não no release. Não no palanque. No balde. E o balde, este sim, não cabe em fotografia oficial.

A

assessoriabrowbrow

Redação The Brow Brasil — jornalismo, investigação e cultura.

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