O abalo mais forte do ano no arquipélago derrubou prédios, soterrou casas e espalhou alertas de tsunami pela Ásia, semanas depois de Tocantins, Rio de Janeiro e São Paulo terem registrado tremores de terra. Este dossiê mostra por que o país que se julga imune também range.
O Brasil decorou na escola que mora no centro de uma placa e que por isso está a salvo. A geologia não estudou essa lição. Comece pelo que não admite relativização. Às 7h37 desta segunda, no horário local, um terremoto de MAGNITUDE 7,8 rompeu o fundo do mar diante da província de SARANGANI, na ponta sul da ilha de MINDANAO. Foi o mais forte a atingir as FILIPINAS neste ano, segundo o Instituto Filipino de Vulcanologia e Sismologia. Ao fim do dia, a defesa civil contava ao menos 35 MORTOS, 134 FERIDOS e 12 DESAPARECIDOS. Em GLAN, um deslizamento engoliu casas no sopé de uma serra e matou 13 PESSOAS de uma vez. Em MALITA, uma escola filmou as próprias crianças se jogando no chão do pátio enquanto a cobertura desabava atrás delas, em plena hora do hino. O mar veio em seguida, com ondas em seis pontos do litoral e alertas que correram por Indonésia, Palau, Taiwan, Papua Nova Guiné e o sul do Japão. É o retrato de um país que mora sobre uma das zonas mais instáveis do planeta. Nada disso, dizem, tem a ver com o Brasil.
Tem.

Nas semanas anteriores à tragédia filipina, o chão brasileiro se mexeu, e em três lugares quase ao mesmo tempo. Na madrugada de 21 de maio, um tremor de magnitude 2,8 foi registrado entre CARIRI DO TOCANTINS e GURUPI, no sul do TOCANTINS, pela Rede Sismográfica Brasileira. Na mesma quinta, às 5h31, um abalo de magnitude 3,3 sacudiu a costa do RIO DE JANEIRO, a cerca de 100 quilômetros de MARICÁ. Por volta da mesma data, SÃO PAULO: moradores da capital sentiram o solo tremer e entupiram a Defesa Civil de ligações, num episódio que a USP mediu em torno de 2,3 graus. Três estados, poucos dias, sentindo aquilo que a maioria dos brasileiros jura que não existe aqui. Antes de seguir, uma distinção que separa o pânico da negação. O Serviço Geológico do Brasil chama de TERREMOTO o evento de grande magnitude e ampla ruptura, como o de Mindanao, e de tremor de terra ou abalo sísmico os de baixa intensidade, como os 3,3 do Rio. A diferença é brutal. Um 7,8 libera milhares de vezes mais energia do que um 3,3. São parentes distantes, não gêmeos. A pergunta que interessa é por que a terra treme num país que não fica sobre nenhuma fronteira de placas. O Brasil repousa no interior da placa que sustenta a América do Sul, uma região estável, e por isso quase todos os seus sismos são fracos. Estável, porém, não quer dizer morto. A placa não é um bloco perfeitamente rígido. O empurrão da Cordilheira dos Andes a oeste e a abertura do Atlântico a leste prensam a rocha, e essa tensão não para na borda: viaja para dentro e se acumula em fraturas antigas. Quando uma delas cede, a terra range. O Observatório Nacional lembra que a margem sudeste é a principal zona sísmica oceânica do país, onde tremores pequenos são rotina. Rotina mesmo. O abalo do litoral fluminense, em maio, era apenas o nono do país desde o começo daquele mês, e o de número 67 no ano. Sismos de baixa magnitude acontecem quase toda semana no Brasil, captados por uma rede de quase cem estações, e a maioria não chega a ser sentida. É esse silêncio que sustenta a ilusão de que nada acontece. Vem daí a narrativa mais confortável que o brasileiro carrega desde criança: a de um país blindado no meio da placa, longe do Chile, do Japão, das Filipinas. A narrativa não é mentira. É meia verdade. O Brasil está protegido dos cataclismos de margem ativa, dos 7,8 que derrubam universidades e abrem o mar. Imune, não está. E é na distância entre protegido e imune que mora o risco que ninguém calcula.
A história sísmica do país, que quase ninguém conta, derruba o mito sem precisar gritar. Em 9 de dezembro de 2007, um tremor de magnitude 4,9 atingiu ITACARAMBI, no norte de Minas Gerais. Condenou mais de 70 casas, feriu seis pessoas e matou uma menina de cinco anos, esmagada pela queda de uma parede. Foi a ÚNICA morte por atividade sísmica já registrada no Brasil. Uma. É tão pouco que vira esquecimento. Mas uma criança morreu, aqui, soterrada por um terremoto que a cartilha jura impossível. Não foi acaso isolado. Em 30 de novembro de 1986, JOÃO CÂMARA, no Rio Grande do Norte, entrou num enxame sísmico de milhares de tremores que duraram meses, alguns chegando a 5,1, com cerca de 4 mil construções danificadas e gente dormindo na rua de medo de a casa cair durante a noite. O susto foi tão grande que pariu a primeira norma brasileira de construção resistente a sismos, a NBR 15421. Seis anos antes, em 1980, PACAJUS, na Grande Fortaleza, sentiu um tremor de 5,2 que feriu pessoas, atingiu mais de 400 casas e foi percebido na capital. E é consenso entre sismólogos que o NORDESTE é a região mais sísmica do país, por causa de uma malha densa de fraturas e de tensões herdadas de antes de a América do Sul se separar da África, há cerca de 105 milhões de anos. Na conta da magnitude pura, o recorde nacional surpreende. Em 20 de janeiro de 2024, um terremoto de MAGNITUDE 6,6 atingiu a divisa do ACRE com o AMAZONAS, o mais forte da história do Brasil. Não matou ninguém e não derrubou nada, porque caiu no meio da floresta, longe de tudo. Leia de novo. Não houve vítimas não porque o tremor foi pequeno, e sim porque ele teve a sorte de acontecer onde quase não mora gente. Quem assinou esse final foi o acaso, não a geologia.
Aqui Mindanao vira espelho do Brasil. O que mata num terremoto quase nunca é só a força do abalo. É a distância até a falha, a quantidade de gente em cima dela e, acima de tudo, o que se construiu ali. As Filipinas contam mortos às dezenas porque vivem sobre uma margem ativa. O Brasil não vive, mas também não constrói pensando no dia em que a terra lembrar que pode se mexer. Fora de João Câmara, risco sísmico é assunto que não entra no canteiro de obras nem no plano diretor, num país que se dá ao luxo de ignorar o tema porque decidiu que ele é problema dos outros. Não é profecia de catástrofe. A chance de um 7,8 em solo brasileiro é baixíssima, e seria desonesto sugerir o contrário. O ponto é outro. O mesmo planeta que abriu o chão sob as crianças de Malita move, devagar e em silêncio, o chão sob o Rio, sob o Tocantins, sob São Paulo. A terra é uma só e não respeita a linha que traçamos entre zona de risco e lugar seguro. Chamamos o nosso chão de firme só porque ele ainda não nos obrigou a duvidar. Mindanao acordou nesta segunda para lembrar que firmeza é o nome que se dá a um tremor que ainda não chegou.

Deixe um comentário