segunda-feira, 29 de junho de 2026
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A FLORESTA QUE O ESTADO MANDOU DERRUBAR

5 min de leitura Verificado

Foto · @obrowbrow | The BrOW Brasil

No Sul do Piauí, a maior devastação ambiental do Brasil em 2025 não foi crime. Foi licença.

O dado choca menos pela escala do que pela assinatura que o autoriza. Existe uma burocracia que transforma extermínio em procedimento.

Há um número que parece pequeno e é monstruoso: 80 campos de futebol por dia. Foi essa a velocidade com que a Caatinga desapareceu em Canto do Buriti ao longo de 2025. Não em uma semana de fúria, não num incêndio descontrolado. Todos os dias. Metodicamente. Enquanto a manhã nascia sobre a cidade a 410 quilômetros de Teresina, máquinas já arrastavam correntes pelo solo seco, e à noite mais um pedaço de bioma havia deixado de existir. O município perdeu 20.877 hectares de vegetação nativa, segundo o Relatório Anual do Desmatamento divulgado pelo MapBiomas na quarta-feira. A área equivale a quase o dobro do território de Paris. E aqui mora a primeira inversão do senso comum: é a primeira vez que a cidade assume o topo do ranking nacional entre os 5.572 municípios monitorados. O salto foi vertical. Em 2024, Canto do Buriti ocupava apenas a 12ª posição entre as cidades que mais desmataram no país. Em um ano, a 12ª colocada virou a primeira do Brasil inteiro.

O contraste com o país é o que expõe a anomalia. Pela primeira vez desde 2019, a área total desmatada no Brasil ficou abaixo de 1 milhão de hectares em um único ano, com redução de 20,6% em relação a 2024. O Brasil, em tese, freava. Canto do Buriti acelerava na contramão. Quando a maré recua e uma única pedra continua afundando, não é a maré que explica a pedra. Agora o ponto que dói. Procurada, a Semarh não negou a devastação. Ela a CONFIRMOU. Do total de áreas suprimidas no estado em 2025, cerca de 72% ocorreram mediante autorização legal dos órgãos ambientais competentes, dentro dos critérios da legislação brasileira. A secretaria ainda argumenta que os dados precisam ser analisados de forma contextualizada e técnica. A prefeitura, por sua vez, repassou a responsabilidade: as licenças são emitidas pela Semarh, e até a última atualização não se manifestou. O silêncio municipal e a confirmação estadual desenham juntos um mesmo retrato. NINGUÉM ESTÁ ESCONDENDO NADA PORQUE NÃO HÁ NADA DE ILEGAL A ESCONDER.

CANTO DO BURITI PIAUÍ

É aqui que o caso deixa de ser ambiental e vira filosófico. Existe uma diferença abissal entre o que é legal e o que é legítimo, e o Direito moderno raramente admite essa fenda em voz alta. Hannah Arendt já havia descrito o fenômeno em outro contexto: a banalidade do mal não exige monstros, exige funcionários. O dano em escala industrial costuma chegar não com gritos, mas com formulários carimbados, protocolos preenchidos, assinaturas dentro do prazo. A motosserra obedece à lei. E a lei, no Sul do Piauí, autorizou. A geografia completa a denúncia. Os dez municípios com maior área desmatada responderam juntos por 15% do total do país, sendo que oito deles estão no Matopiba. O Matopiba, fronteira agrícola que cruza Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, é o novo eldorado da soja brasileira, a terra onde o agronegócio avança sobre o Cerrado e a Caatinga com a bênção do desenvolvimento. Junto com Mato Grosso, os estados do Matopiba respondem por mais de 63% de toda a área desmatada no Brasil em 2025. E o vetor é nítido: a expansão da agropecuária responde por 99% da vegetação nativa perdida no Brasil em 2025. Não é o garimpeiro anônimo. É O MODELO ECONÔMICO FUNCIONANDO EXATAMENTE COMO FOI PROJETADO.

Há um detalhe psicológico que sustenta tudo isso, e ele explica por que a sociedade não se revolta. A Caatinga é o único bioma exclusivamente brasileiro, e mesmo assim carrega no imaginário nacional o estigma do feio, do seco, do lugar de onde se foge. Ninguém chora por uma paisagem que aprendeu a desprezar. A Amazônia tem santuário simbólico, tem documentário, tem celebridade. A Caatinga tem o silêncio de quem nunca foi considerado digno de luto. E é precisamente o que não se valoriza que se derruba sem ruído. Compare o tempo. No século passado, derrubar uma floresta dependia de braços, machados, meses. Hoje depende de uma assinatura e de um trator. A tecnologia comprimiu em 289 dias aquilo que antes levaria gerações. A eficiência, essa palavra de ordem da modernidade, mostrou seu avesso: somos cada vez mais rápidos em destruir aquilo que somos lentos demais para entender.

Fica a pergunta que não tem resposta limpa. Se a maior devastação ambiental do país pode ser inteiramente legal, então de que serve a lei. E se a lei serve para permitir, e não para conter, talvez a verdadeira floresta que precise ser protegida não esteja no Sul do Piauí. ESTEJA NA DEFINIÇÃO DO QUE CHAMAMOS DE PERMITIDO.

A

assessoriabrowbrow

Redação The Brow Brasil — jornalismo, investigação e cultura.

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