terça-feira, 27 de outubro de 2026
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Meio Ambiente

A FLORESTA QUE O ESTADO MANDOU DERRUBAR

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Foto · @obrowbrow | REVISTA The BrOW Brasil

No Sul do Piauí, a maior devastação ambiental do Brasil em 2025 não foi crime. Foi licença.

O dado choca menos pela escala do que pela assinatura que o autoriza. Existe uma burocracia que transforma extermínio em procedimento.

Há um número que parece pequeno e é monstruoso: 80 campos de futebol por dia. Foi essa a velocidade com que a Caatinga desapareceu em Canto do Buriti ao longo de 2025. Não em uma semana de fúria, não num incêndio descontrolado. Todos os dias. Metodicamente. Enquanto a manhã nascia sobre a cidade a 410 quilômetros de Teresina, máquinas já arrastavam correntes pelo solo seco, e à noite mais um pedaço de bioma havia deixado de existir. O município perdeu 20.877 hectares de vegetação nativa, segundo o Relatório Anual do Desmatamento divulgado pelo MapBiomas na quarta-feira. A área equivale a quase o dobro do território de Paris. E aqui mora a primeira inversão do senso comum: é a primeira vez que a cidade assume o topo do ranking nacional entre os 5.572 municípios monitorados. O salto foi vertical. Em 2024, Canto do Buriti ocupava apenas a 12ª posição entre as cidades que mais desmataram no país. Em um ano, a 12ª colocada virou a primeira do Brasil inteiro.

O contraste com o país é o que expõe a anomalia. Pela primeira vez desde 2019, a área total desmatada no Brasil ficou abaixo de 1 milhão de hectares em um único ano, com redução de 20,6% em relação a 2024. O Brasil, em tese, freava. Canto do Buriti acelerava na contramão. Quando a maré recua e uma única pedra continua afundando, não é a maré que explica a pedra. Agora o ponto que dói. Procurada, a Semarh não negou a devastação. Ela a CONFIRMOU. Do total de áreas suprimidas no estado em 2025, cerca de 72% ocorreram mediante autorização legal dos órgãos ambientais competentes, dentro dos critérios da legislação brasileira. A secretaria ainda argumenta que os dados precisam ser analisados de forma contextualizada e técnica. A prefeitura, por sua vez, repassou a responsabilidade: as licenças são emitidas pela Semarh, e até a última atualização não se manifestou. O silêncio municipal e a confirmação estadual desenham juntos um mesmo retrato. NINGUÉM ESTÁ ESCONDENDO NADA PORQUE NÃO HÁ NADA DE ILEGAL A ESCONDER.

CANTO DO BURITI PIAUÍ

É aqui que o caso deixa de ser ambiental e vira filosófico. Existe uma diferença abissal entre o que é legal e o que é legítimo, e o Direito moderno raramente admite essa fenda em voz alta. Hannah Arendt já havia descrito o fenômeno em outro contexto: a banalidade do mal não exige monstros, exige funcionários. O dano em escala industrial costuma chegar não com gritos, mas com formulários carimbados, protocolos preenchidos, assinaturas dentro do prazo. A motosserra obedece à lei. E a lei, no Sul do Piauí, autorizou. A geografia completa a denúncia. Os dez municípios com maior área desmatada responderam juntos por 15% do total do país, sendo que oito deles estão no Matopiba. O Matopiba, fronteira agrícola que cruza Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, é o novo eldorado da soja brasileira, a terra onde o agronegócio avança sobre o Cerrado e a Caatinga com a bênção do desenvolvimento. Junto com Mato Grosso, os estados do Matopiba respondem por mais de 63% de toda a área desmatada no Brasil em 2025. E o vetor é nítido: a expansão da agropecuária responde por 99% da vegetação nativa perdida no Brasil em 2025. Não é o garimpeiro anônimo. É O MODELO ECONÔMICO FUNCIONANDO EXATAMENTE COMO FOI PROJETADO.

Há um detalhe psicológico que sustenta tudo isso, e ele explica por que a sociedade não se revolta. A Caatinga é o único bioma exclusivamente brasileiro, e mesmo assim carrega no imaginário nacional o estigma do feio, do seco, do lugar de onde se foge. Ninguém chora por uma paisagem que aprendeu a desprezar. A Amazônia tem santuário simbólico, tem documentário, tem celebridade. A Caatinga tem o silêncio de quem nunca foi considerado digno de luto. E é precisamente o que não se valoriza que se derruba sem ruído. Compare o tempo. No século passado, derrubar uma floresta dependia de braços, machados, meses. Hoje depende de uma assinatura e de um trator. A tecnologia comprimiu em 289 dias aquilo que antes levaria gerações. A eficiência, essa palavra de ordem da modernidade, mostrou seu avesso: somos cada vez mais rápidos em destruir aquilo que somos lentos demais para entender.

Fica a pergunta que não tem resposta limpa. Se a maior devastação ambiental do país pode ser inteiramente legal, então de que serve a lei. E se a lei serve para permitir, e não para conter, talvez a verdadeira floresta que precise ser protegida não esteja no Sul do Piauí. ESTEJA NA DEFINIÇÃO DO QUE CHAMAMOS DE PERMITIDO.

RB

Redação The Brow Brasil

Redação The Brow Brasil, jornalismo, investigação e cultura.

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