Prefeito Rodrigo Martins questiona o Estado sobre trabalhadores que cruzam todos os dias a fronteira entre cidades vizinhas do sul do Piauí
A pergunta que ele deixou na tribuna não era sobre tarifa. Era sobre se alguém, ao desenhar a rodovia, lembrou que existem pessoas vivendo dela.
Foi na quarta feira, dia 17 de junho, durante audiência da Comissão de Infraestrutura, Política Econômica e Turismo da Assembleia Legislativa do Piauí, que o prefeito de BERTOLÍNIA, RODRIGO MARTINS, levou ao plenário uma camada que nenhum gráfico de contrato consegue mostrar, a do deslocamento humano cotidiano. Ele lembrou que parte da população se move todos os dias entre cidades vizinhas por causa do trabalho, e que essas pessoas ainda não sabem como, exatamente, serão cobradas nas novas praças que o Estado planeja instalar na PI 247. Não havia, até aquele momento, uma resposta técnica para isso. Havia apenas o anúncio de que a cobrança viria.
A audiência foi provocada por um requerimento do deputado GUSTAVO NEIVA, e a pauta tinha um nome técnico que escondia uma tensão social profunda, a instalação de mais praças de pedágio na PI 247.
O projeto original pertencia à TRANSCERRADO, dentro de uma Parceria Público Privada que previa 200 quilômetros de rodovia. O aditivo, no entanto, multiplicou o contrato. Passou para 500 quilômetros, segundo o próprio deputado relatou na audiência. Há quem fale em números ainda maiores. O diretor executivo da APROSOJA PI, RAFAEL MASCHIO, descreveu um salto de 276 quilômetros com quatro praças para 584 quilômetros com DEZ praças de cobrança. A diferença entre os números importa menos do que o padrão que eles revelam. Um contrato que cresce sem que a sociedade que vai pagar por ele seja chamada para a mesa.
Esse é o tipo de decisão que se desenha no papel e se sente no corpo. Quem mora no sul do Piauí não lê editais, sente o preço subir no posto de combustível e no frete de cada saco de soja. O prefeito de URUÇUÍ, GILBERTO JÚNIOR, foi direto ao apontar que prefeitos e população não foram ouvidos sobre a criação dos novos pedágios. Para ele, o aumento na tarifa pressiona toda a cadeia, do caminhão à mercadoria, e interfere no direito de ir e vir do cidadão comum. Em sua fala, ecoou uma cobrança que é também geográfica, a de que exigimos diálogo e respeito com o sul do Piauí, com quem produz.
Há ainda a Curva da Morte, mencionada por Maschio como símbolo de um contrato que entrega cobrança rápida e melhoria lenta. Uma estrada onde a vida humana já é moeda de troca, e que segundo ele segue ceifando vidas quase todo mês, enquanto o produtor já paga impostos como ICMS e FDI para financiar exatamente a infraestrutura que agora também lhe é cobrada na praça. Não é exagero dizer que, na lógica que se desenhou, A INFRAESTRUTURA CHEGOU, MAS O PRODUTOR ESTÁ PAGANDO TRÊS VEZES.
É nesse ponto que a discussão técnica se torna política no sentido mais antigo da palavra, a gestão da vida em comum. Uma praça de pedágio não é apenas concreto e cancela. É uma fronteira que o Estado decide onde colocar, e que separa quem pode pagar de quem não pode. Quando essa fronteira nasce de um aditivo contratual discutido depois que as máquinas já estão na pista, o que se perde não é só dinheiro. É a sensação, cada vez mais comum no interior do Piauí, de que as decisões sobre a própria vida são tomadas em outro lugar, por outras pessoas, sem que o aviso chegue antes do boleto. A audiência terminou sem solução, mas não sem registro. Ficou marcada a exigência de diálogo, a cobrança por explicações técnicas, e a constatação incômoda de que, nesse contrato, quem cresceu mais rápido foi o número de praças, não o número de respostas.

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