segunda-feira, 29 de junho de 2026
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A MÁQUINA QUE ESCOLHE QUEM APARECE

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Foto · @obrowbrow | The BrOW Brasil

A ausência de Endrick na estreia do Brasil na Copa reacendeu uma suspeita antiga: até onde termina a decisão técnica e onde começa a influência silenciosa do mercado? Existe um roteiro que ninguém admite escrever. Ele não aparece nas coletivas, não entra nas súmulas e não costuma ser discutido diante das câmeras. Mas, de tempos em tempos, um episódio faz a pergunta voltar à superfície: quem realmente decide quem aparece?

No dia 13 de junho, o Brasil empatou em 1 a 1 com o Marrocos na estreia da Copa do Mundo de 2026. Endrick, um dos nomes mais aguardados da nova geração, permaneceu no banco durante os 90 minutos. Nenhuma lesão. Nenhuma suspensão. Nenhum minuto. Carlo Ancelotti optou por Igor Thiago como titular e utilizou outras alternativas ofensivas ao longo da partida. Quando questionado sobre a ausência do atacante, evitou individualizar o debate e preferiu falar sobre o desempenho coletivo da equipe. Foi o suficiente. Nas horas seguintes, a internet brasileira fez aquilo que a falta de respostas costuma provocar: preencheu o silêncio com hipóteses. A mais popular delas não falava sobre futebol. Falava sobre dinheiro.

OU MELHOR: SOBRE O ECOSSISTEMA BILIONÁRIO QUE TRANSFORMOU O FUTEBOL EM UMA DAS MAIORES VITRINES COMERCIAIS DO PLANETA.

Endrick ocupa uma posição singular dentro da Seleção Brasileira. Enquanto a esmagadora maioria dos atletas está vinculada às gigantes que dominam historicamente o mercado esportivo, o atacante tornou-se o principal rosto global da New Balance no futebol. Não apenas um garoto-propaganda. Um projeto estratégico. Um investimento de longo prazo. Um ativo de imagem. E é justamente aí que nasce a teoria. Sem apresentar provas, milhares de torcedores passaram a questionar se a condição de Endrick como representante de uma marca concorrente poderia, de alguma forma, influenciar seu espaço dentro de um ambiente comercialmente dominado por outros interesses. A hipótese ganhou força nas redes, mas não existe qualquer evidência pública que demonstre interferência de patrocinadores nas decisões técnicas da Seleção Brasileira.

Ainda assim, a pergunta sobrevive. E ela sobrevive porque o futebol brasileiro já viveu algo parecido.

EM 1996, A RELAÇÃO ENTRE CBF E NIKE DEIXOU DE SER APENAS UM ACORDO ESPORTIVO PARA SE TORNAR UMA DISCUSSÃO NACIONAL SOBRE PODER.

Anos depois, vieram as revelações sobre cláusulas contratuais que permitiam influência da patrocinadora na organização de amistosos da Seleção. O caso gerou investigações, audiências públicas, manchetes e uma CPI que mobilizou o país. O relatório acabou arquivado sem responsabilizações, mas deixou uma herança permanente: a sensação coletiva de que os interesses econômicos poderiam, sim, atravessar as fronteiras do gramado. A memória permanece viva. Hoje, a parceria entre CBF e Nike continua sendo uma das maiores do esporte mundial. Em 2024, a entidade renovou o vínculo até 2038 em um acordo estimado em US$ 100 milhões anuais fixos, além de receitas variáveis e royalties, consolidando o maior contrato da história da confederação.

OS NÚMEROS SÃO TÃO GRANDES QUE TRANSFORMAM UMA SELEÇÃO NACIONAL EM UMA PLATAFORMA GLOBAL DE NEGÓCIOS.

E quando isso acontece, toda decisão passa a ser observada por outro ângulo. A sociologia chama esse fenômeno de déficit de confiança institucional. Quando as estruturas se tornam grandes demais, distantes demais e opacas demais, as pessoas começam a procurar explicações alternativas para preencher aquilo que não conseguem enxergar. O curioso é que, nesse cenário, a teoria da conspiração deixa de ser apenas uma teoria. Ela se torna um sintoma. Um sintoma de uma sociedade que já não acredita totalmente na versão oficial dos acontecimentos. Por isso a discussão sobre Endrick extrapola o futebol. Ela fala sobre percepção. Fala sobre credibilidade. Fala sobre a dificuldade contemporânea de distinguir o que é decisão técnica do que é consequência de estruturas econômicas invisíveis. Em outras palavras, o debate não existe apenas porque Endrick ficou no banco. O debate existe porque milhões de pessoas aprenderam, ao longo das últimas décadas, que o esporte moderno raramente é apenas esporte. O futebol de hoje movimenta cifras comparáveis às de grandes conglomerados globais. Clubes são marcas. Jogadores são propriedades intelectuais. Patrocinadores são investidores estratégicos. Audiência é ativo financeiro. E nesse ambiente, toda escolha passa a carregar uma segunda interpretação.

Talvez Ancelotti simplesmente tenha feito uma opção tática. Talvez Endrick entre no próximo jogo e toda a discussão desapareça. Mas existe algo mais interessante do que descobrir se a teoria está certa ou errada. É entender por que tanta gente acreditou nela tão rapidamente. Porque quando uma sociedade passa a desconfiar mais das instituições do que das especulações, o problema raramente está apenas na teoria. O problema está no vazio que permitiu que ela florescesse. E é justamente nesse vazio que a máquina continua operando. Silenciosamente.

Escolhendo quem aparece.

A

assessoriabrowbrow

Redação The Brow Brasil — jornalismo, investigação e cultura.

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