quinta-feira, 27 de agosto de 2026
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Jardyel Alencar: o deputado que matou no trânsito, fugiu da responsabilidade civil e agora ataca Silas Freire chamando a morte de uma mulher de “fake news”

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Foto · @obrowbrow | The BrOW Brasil

É esse o deputado que você quer que te represente? Matou no trânsito, deixou três filhos órfãos, arquivou o inquérito e agora trata a morte de uma mãe de família como “fake news” enquanto tenta calar o jornalista que ousou cobrar

No dia 11 de setembro de 2020, na Avenida Henry Wall de Carvalho, perto da Chesf, em Teresina, um Audi conduzido por Jadyel Alencar colidiu com uma Honda Titan 125. A motociclista era Francimeire Almeida Mendes. Segundo testemunhas ouvidas no inquérito, o motorista iniciou uma conversão para a direita sem dar seta, falando ao celular, e de repente retornou o veículo para a esquerda. A colisão foi lateral. A mulher caiu. O pneu traseiro do Audi passou por cima da cabeça dela. Ele seguiu. Só parou quando outros motoristas fecharam a via e gritaram. A vítima ficou cerca de quarenta minutos deitada no asfalto, consciente, sangrando, pedindo que ligassem para a família. Quando o SAMU chegou, Jadyel se retirou. Não chamou a perícia. Cinco dias depois, Francimeire morreu no Hospital de Urgência de Teresina. Deixou três filhos. Era a responsável pelo sustento da casa.

O inquérito policial foi instaurado. A Polícia Civil concluiu sem indiciar. O Ministério Público concordou. O procedimento criminal foi arquivado. Na esfera cível, porém, a família ajuizou ação de indenização por danos materiais, morais e pensionamento. O processo continua. Em decisão recente o juiz já saneou a ação e determinou que as partes indiquem provas. A Justiça ainda vai analisar a dinâmica, o nexo causal e os prejuízos. Não há decisão final. Mesmo assim, o parlamentar passou a afirmar publicamente que o caso foi arquivado e que informações sobre o episódio seriam fake news. Alguns portais menores ecoaram a versão. A morte de uma mãe de três filhos virou, na boca de quem estava ao volante, uma invenção a ser desmentida. E o jornalista que cobrou o assunto passou a ser atacado. A diferença entre inquérito arquivado e processo cível em tramitação não é detalhe técnico. É a distância entre o silêncio institucional e a dor que ainda respira. Arquivar a investigação criminal encerra uma fase. Não apaga o sangue no asfalto. Não devolve a mãe. Não fecha a conta dos três filhos que ficaram sem o sustento e sem o colo. Chamar essa morte de fake news não é defesa. É tentativa de transformar o corpo em relato descartável.

Há uma psicologia particular nesse gesto. Quem está no volante de um Audi, em avenida movimentada, sem seta, ao celular, e depois oferece seis mil cento e sessenta e três reais à família como “mera liberalidade”, opera em um registro em que a vida do outro parece negociável. A sociedade que normaliza esse registro cria um tipo específico de impunidade: a que não precisa de absolvição formal. Basta o arquivamento e o slogan de desinformação. O caso de Francimeire não é isolado. Em várias cidades brasileiras, acidentes fatais envolvendo figuras públicas seguem o mesmo roteiro: investigação lenta, arquivamento criminal, processo cível arrastado, e a narrativa oficial tentando reduzir a vítima a um mal-entendido. A diferença aqui é a ousadia de rotular a própria morte como fake news e de atacar quem se recusa a engolir a versão.

A pergunta que fica não é jurídica. É cultural. Quantas mães de família precisam ficar quarenta minutos no chão, sangrando, pedindo para ligarem para os filhos, para que o discurso de “foi arquivado” deixe de funcionar como escudo? Quantas vezes o pneu precisa passar pela cabeça para que a sociedade pare de aceitar que a dor seja reclassificada como mentira?

A Justiça ainda não julgou a indenização. A família ainda espera. O processo civil segue. E enquanto isso, a frase “o caso foi arquivado” continua sendo repetida como se o arquivamento do inquérito fosse o arquivamento da própria existência de Francimeire.

Não é.

A

assessoriabrowbrow

Redação The Brow Brasil — jornalismo, investigação e cultura.

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