quinta-feira, 27 de agosto de 2026
Urgente
01:45   Jardyel Alencar: o deputado que matou no trânsito, fugiu da responsabilidade civil e agora ataca Silas Freire chamando a morte de uma mulher de “fake news”02:04   A JUÍZA MANDOU A DEFESA CALAR A BOCA, O PROMOTOR CHAMOU DE FACÇÃO E AINDA ASSIM ELES ABSOLVERAM TODO MUNDO03:25   O DEBATE QUE PARECIA PODCAST DE YOUTUBE NO PIAUÍ01:23   Krigor Scoca: o advogado que nasceu na fazenda e hoje organiza a terra no Piauí que já regularizou 146 mil imóveis04:17   O PROGRESSISTAS APOSTA EM REALITY, HUMOR E INFLUENCER PARA PREENCHER SUAS CHAPAS NO PIAUÍ20:45   A CENA MAIS EMOCIONANTE DE CHAVES NÃO FOI SURPRESA NENHUMA18:54   40 MIL VOTOS E UM MAPA QUE PARA EM NITERÓI: POR QUE ESSA CONTA NÃO ELEGE DEPUTADO FEDERAL NO RIO DE JANEIRO EM 2026 ?19:12   ADVOGADO PIAUIENSE VIRA SUSPEITO SÓ POR SER DO PIAUÍ01:45   Jardyel Alencar: o deputado que matou no trânsito, fugiu da responsabilidade civil e agora ataca Silas Freire chamando a morte de uma mulher de “fake news”02:04   A JUÍZA MANDOU A DEFESA CALAR A BOCA, O PROMOTOR CHAMOU DE FACÇÃO E AINDA ASSIM ELES ABSOLVERAM TODO MUNDO03:25   O DEBATE QUE PARECIA PODCAST DE YOUTUBE NO PIAUÍ01:23   Krigor Scoca: o advogado que nasceu na fazenda e hoje organiza a terra no Piauí que já regularizou 146 mil imóveis04:17   O PROGRESSISTAS APOSTA EM REALITY, HUMOR E INFLUENCER PARA PREENCHER SUAS CHAPAS NO PIAUÍ20:45   A CENA MAIS EMOCIONANTE DE CHAVES NÃO FOI SURPRESA NENHUMA18:54   40 MIL VOTOS E UM MAPA QUE PARA EM NITERÓI: POR QUE ESSA CONTA NÃO ELEGE DEPUTADO FEDERAL NO RIO DE JANEIRO EM 2026 ?19:12   ADVOGADO PIAUIENSE VIRA SUSPEITO SÓ POR SER DO PIAUÍ
Globoplay ao vivo
@imprensapiaui

O DEBATE QUE PARECIA PODCAST DE YOUTUBE NO PIAUÍ

11 min de leitura Verificado

Foto · @obrowbrow | The BrOW Brasil

A Band NEWS prometeu televisão aberta. Entregou eco de sala, microfone atrasado e uma produção que esquecia, a cada minuto, que estava no ar para todo o estado. Um governador que fala em porcentagens de uma realidade distante do Piauí. Cinco candidatos. Uma noite. E a descoberta de que o estado mais pobre do Brasil não discute propostas. Discute sobrevivência.

Na noite de 9 de agosto de 2026 o estúdio da Band Piauí deveria ter sido o primeiro grande palco formal da disputa pelo governo. O que se viu foi outra coisa. O som chegava com atraso. O eco da sala se misturava às vozes como se não existisse técnico de som. Os microfones captavam o ambiente inteiro em vez da fala limpa. A sensação era de transmissão improvisada de influenciador de YouTube, não de emissora aberta que se apresenta como referência. As perguntas, longas e ensaiadas, carregavam o peso da prolixidade institucional. Poucas tocavam o interesse social amplo. Muitas pareciam formuladas apenas para preencher tempo. A apresentadora, apesar do esforço, recebeu nota seis. Engasgou. Se confundiu. Chegou a chamar um repórter de deputado e de candidato. Faltou ensaio. Faltou organização. O ritmo do programa nunca foi dominado.

Dentro desse cenário amador os cinco candidatos se apresentaram e revelaram suas visões:

Lúcia Santos, médica formada pela Universidade Federal do Piauí, com mestrado em ciências da saúde, ex-presidente da Federação Nacional dos Médicos e atual presidente do Sindicato dos Médicos do Piauí, chegou como a única mulher no debate. Sua trajetória está ligada à saúde e à representação sindical da categoria. No estúdio, ela transformou a experiência de quem atende no chão da realidade em denúncia direta. Falou da mobilidade caótica. Das motos que se transformam em risco de vida diário. Dos traumas que tiram gente do mercado de trabalho e sobrecarregam o sistema de saúde. Na saúde pública, atacou com força a privatização via organizações sociais. Disse que o modelo precariza o atendimento à população e as condições de trabalho dos profissionais, muitos sem sequer os direitos básicos da CLT. Depois trouxe um número que ficou pairando no ar: QUINZE MILHÕES DE REAIS POR MÊS GASTOS COM SAÚDE DIGITAL QUE, SEGUNDO ELA, NÃO FUNCIONA. QUINZE MILHÕES JOGADOS FORA. A regulação com filas enormes, a falta de médicos especialistas e os hospitais caindo aos pedaços seriam a prova viva desse desperdício. Conectou tudo ao analfabetismo residual, aos salários mais baixos da Polícia Militar do Brasil e à violência que prende o cidadão de bem dentro de casa enquanto joga o jovem na criminalidade. Sua fala tinha o tom de quem está cansada de ver O PIAUÍ NA UTI. E de candidatos que preferem passar pano em vez de olhar o paciente nos olhos.

Gisvaldo Oliveira, historiador, professor da Universidade Estadual do Piauí e sindicalista, chegou com a bagagem de quem atua no ensino superior e nos movimentos sociais há mais de três décadas. Iniciou a militância na Pastoral da Juventude da Igreja Católica, passou pelo movimento estudantil, tornou-se docente da Uespi, coordenou o curso de licenciatura em História no campus de Floriano e integra a Adcesp. Pesquisador de movimentos sociais, conflitos agrários, povos indígenas e comunidades quilombolas, estreava em 2026 sua primeira disputa eleitoral. Sua visão foi a mais estrutural da noite. Quando falou de esporte, não falou de quadra. FALOU DE VIDA E MORTE. Disse que o estado NÃO TEM POLÍTICA DE SEGURANÇA PÚBLICA DEFINIDA. TEM POLÍTICA DE CRIMINALIZAÇÃO DA JUVENTUDE NEGRA, POBRE E PERIFÉRICA. Argumentou que só a política de prender não resolve, porque se tem prendido bastante, o sistema carcerário está cada vez mais lotado e os crimes continuam existindo. Propôs que, em vez de a juventude encontrar o revólver apontado para a cabeça, possa encontrar quadras poliesportivas, centros culturais, bibliotecas e teatros de arena. Quer que as praças sejam ocupadas com atividades lúdicas e contação de histórias, porque são essas as ações que evitam que a juventude seja capturada pelo crime. É isso que o pai e a mãe de um jovem da periferia querem saber: que política concreta o governo tem para evitar que seus filhos sejam captados pelo crime. Aí entra o esporte, aliado a lazer e cultura. Lembrou que os jovens da periferia TÊM SIDO ESCOLHIDOS COMO PRESA FÁCIL PARA JUSTIFICAR UMA POLÍTICA DE LETALIDADE. E que essa letalidade não se dirige apenas aos jovens, mas também aos trabalhadores da segurança pública. O BRASIL É O PAÍS ONDE A POLÍCIA MAIS MATA, MAS É TAMBÉM O PAÍS ONDE MAIS MORREM OS TRABALHADORES DA SEGURANÇA. Citou a letra do rap: TAMBÉM MORRE QUEM ATIRA. Não queremos que os trabalhadores da segurança morram, nem que o revólver seja apontado para criminalizar a juventude negra, pobre e periférica. Queremos que a juventude tenha oportunidades de lazer, de esporte e de expressão cultural. ISSO REALMENTE RESOLVE O PROBLEMA DA SEGURANÇA PÚBLICA. Esporte é prioridade para o Partido Socialismo e Liberdade. Na regularização fundiária, atacou o modelo do agronegócio, citou a pesquisa da Universidade Federal do Piauí que encontrou glifosato em oitenta e três por cento das amostras de leite materno em Uruçuí e defendeu a agricultura familiar como prioridade absoluta. PARA O PSOL, O AGRO NÃO É POP. O AGRO REPRESENTA MORTE.

Gustavo Henrique, bacharel em direito, servidor público e presidente estadual do Avante, chegou com a postura de quem decidiu transformar ética em arma. Foi o candidato que mais recebeu tempo de fala e direitos de resposta. Usou o espaço para martelar, repetidas vezes, a relação de Joel Rodrigues com o senador Ciro Nogueira, investigado pela Polícia Federal no caso do Banco Master. PERGUNTOU ATÉ ONDE IA O LIMITE ÉTICO. Lembrou que Joel havia sido comissionado no gabinete do senador até pouco tempo antes e questionou a intimidade revelada pela Polícia Federal, incluindo a foto dos dois nos Alpes. Chegou a quase discutir com o adversário, pressionando sobre alianças com a família Bolsonaro e sobre interferências partidárias. Nas considerações finais foi além. Desafiou Joel a dizer quem era o tio e quem era o sobrinho na interferência e afirmou que o senador já havia interferido em sua trajetória no PRTB em 2024, tomando o partido na calada da noite. “Ninguém está acima da lei”, repetiu. Disse que tem honra, que origem não abona caráter e que é neto de caminhoneiro que lhe ensinou dignidade. Falou do filho autista, João Gabriel, como sua maior dádiva. Defendeu isonomia salarial do menor para o maior, recomposição real dos salários dos professores da Uespi e alertou para o risco de apagão na educação. Chegou a prometer registrar o plano de governo em cartório com cláusula de renúncia antecipada caso não cumprisse o mínimo em seis meses. Criticou o desempenho de Floriano sob a gestão de Joel, citando redução de renda per capita e falta de saneamento em sete de cada dez residências. A insistência na ética era legítima como estratégia e o tom chegou a ser severo. O problema é que o Avante NÃO APRESENTOU, EM NENHUM MOMENTO, UM PROJETO QUE SALTASSE AOS OLHOS. Trouxe dados, porcentagens e confrontos. Não trouxe justificativa clara de planejamento para as empresas ligadas à gestão que, segundo ele próprio, estão queimando a imagem do governo. A ÉTICA VIROU O CENTRO. O PLANO FICOU EM SEGUNDO PLANO.

Joel Rodrigues, empresário e político de Floriano, chegou com a biografia mais longa de mandatos locais. Vereador três vezes, prefeito quatro vezes, chegou a disputar o Senado. No debate escolheu a narrativa da dor sentida na pele. Falou do desemprego campeão nacional, das oitocentas pessoas que foram para Mato Grosso do Sul, dos jovens que deixam o estado, das mulheres que se tornam viúvas de maridos vivos. Propôs redução gradual do ICMS. No tema da água foi o mais visceral. Perguntou ao governador se ele sabia o que era faltar água na torneira. Contou a história de Dom Inocêncio, de pessoas que nunca tomaram banho em casa com sessenta anos, de postos já perfurados que faltam ser equipados. O discurso tinha tom e serenidade. Faltava densidade. As propostas permaneceram superficiais. A repetição de ter sido eleito várias vezes em Floriano soou como roteiro decorado. Pior: a produção o deixou apagado. Joel pediu direito de resposta várias vezes. Os advogados do programa negaram a maioria. O telespectador observou, em tempo real, uma retenção de espaço. Quem queria falar mais não conseguiu.

Rafael Fonteles, matemático, professor, empresário, ex-secretário de Fazenda e atual governador, chegou como o candidato da continuidade. Parecia viver dentro de uma bolha. Enquanto os outros descreviam filas, falta de água, jovens migrando e hospitais precarizados, ele apresentava números. Redução de mais de setenta por cento nos roubos em geral. Setenta e cinco por cento nos roubos de celulares. Sessenta por cento nos roubos de veículos. Quarenta por cento nos homicídios. Sessenta por cento no feminicídio em comparação com o ano anterior. Metas de cem mil novas oportunidades de trabalho. Quase cem mil famílias com regularização fundiária. Cinquenta territórios quilombolas titulados. Segundo melhor Ideb do ensino médio do Brasil com nota 5,0. Convidou o Piauí a olhar os oito eixos, os cinquenta e três programas e as duzentas metas específicas já registradas no Tribunal Regional Eleitoral. As críticas dos adversários soavam, em sua fala, como narrativa de oposição e não como o retrato concreto do estado. A distância entre o discurso oficial e a realidade relatada pelos outros candidatos ficou escancarada. Não porque os números fossem necessariamente falsos, mas porque a forma de enxergá-los revelava um governo que ainda não absorveu a dimensão da dor que o próprio Piauí carrega.

O debate teve três blocos. No primeiro, perguntas da emissora sobre educação, mobilidade, saúde, emprego e segurança. No segundo, perguntas de jornalistas sobre carga tributária, agronegócio, esporte, geração de emprego e abastecimento de água. No terceiro, o confronto direto, onde a ética, a regularização fundiária, a saúde digital e a proteção às pessoas trans ocuparam o centro. Houve pedidos de direito de resposta. Alguns foram aceitos. Outros, negados. Houve ataques pessoais e tentativas de elevação do nível. Houve números e houve emoção. Mas o que ficou, no final, foi maior do que a soma das falas. O Piauí revelou-se um estado onde o setor público ainda é o maior empregador formal, onde a agropecuária cresce em valor mas emprega pouco com carteira assinada, onde a segurança melhorou em indicadores mas a sensação de violência persiste, onde a educação avançou no Ideb mas o analfabetismo residual continua a assombrar o interior, e onde a saúde pública é disputada entre o discurso da gestão por organizações sociais e o grito de quem vê filas, corredores e falta de médicos. Os dados do IBGE confirmam: maior taxa de desocupação do Brasil em 2025, segunda maior taxa de analfabetismo, subutilização da força de trabalho liderando o ranking nacional. Os setores que mais geram emprego formal continuam sendo serviços e administração pública. A realidade estrutural não muda com um debate.

Cinco candidatos olharam para o mesmo estado e enxergaram cinco Piauís diferentes. Uma viu o paciente abandonado nos corredores. Outro viu a juventude negra e periférica como alvo de criminalização. Outro transformou ética em único eixo e esqueceu o plano. Outro romantizou a própria biografia sem entregar densidade. O governador se manteve dentro da bolha dos próprios números, tratando a crítica como ruído de oposição.

A Band organizou o primeiro debate do ciclo, mas entregou o oposto do que prometeu. Som precário, perguntas prolixas, confusões de apresentação e distribuição desigual de tempo transformaram a televisão aberta em algo mais próximo de transmissão improvisada. O programa esqueceu, a cada microfone com eco, que falava para um estado inteiro. No fundo, a noite não discutiu apenas propostas. Discutiu se o Piauí ainda acredita ser possível sobreviver sem mudar a forma como se olha para si mesmo.

A

assessoriabrowbrow

Redação The Brow Brasil — jornalismo, investigação e cultura.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *