No tribunal do júri de Parnaíba NO PIAUÍ, a defesa foi silenciada, atacada e tratada como inimiga. No mesmo dia colocou máscara preta no rosto e saiu com absolvição total.
A sala ainda cheirava a madeira envernizada e suor contido quando a juíza atravessou o corredor até a mesa da defesa. Antes mesmo de qualquer jurado sentar, a ordem já vinha embalada de preocupação paternal: mantenham a compostura, não gritem, os jurados daqui não gostam de quem fala alto nem de quem briga. E logo em seguida o contraste. O promotor já briga muito, mas eu não controlo a língua dele. A resposta veio rápida, seca, sem elevação de tom: então o conselho deveria ser dado a ele, não a nós. A conversa degenerou. A magistrada falou de AVC antigo, de não querer morrer ali. A advogada devolveu com a precisão de quem já entendeu o jogo: talvez fosse melhor aposentar-se, porque aquele lugar não era para gente doente. O ar ficou denso. O júri ainda nem começara e o terreno já estava minado.

Durante a sessão o promotor João Malato subiu o tom. Não argumentou só sobre fatos. Chamou os advogados de faccionados. Disse que estavam a serviço de organizações criminosas. A defesa pediu prova. Ofereceu até a quebra do próprio sigilo profissional. Exigiu que constasse em ata. A juíza, segundo o relato unânime das togas, silenciava a cada protesto da defesa. Cala a boca, doutora. Fique na sua. Não reclame. Deixa ele falar. Quando o promotor interrompia, intimidava ou extrapolava, a mesma voz dizia que ele estava no direito dele. A assimetria ficou explícita. Um lado podia atacar a pessoa. O outro lado não podia sequer reagir.
Pâmella Monteiro levantou questão de ordem.
O promotor lia antecedentes, sentenças e denúncias de processos que nada tinham a ver com os fatos em julgamento. Usava argumento de autoridade enquanto a presidente do ato estava ausente. Queria consignado em ata. A confusão subiu de temperatura. Não deu para gravar a sustentação. Alguém na defesa chegou a temer sair algemado. O plenário virou campo de disputa aberta entre prerrogativa e poder institucional.
No fim da noite veio o resultado que ninguém esperava depois daquele clima. Absolvição total. Quatro tentativas e um consumado. Zero condenações. Everton, Roberta, Pâmella e Tuane saíram juntos. O sorriso no vídeo posterior não era de alívio. Era de quem havia quebrado algo. As máscaras pretas já estavam prontas. Colocadas sobre a boca ainda dentro do mesmo prédio. Fotografadas no corredor de madeira clara, ao lado das poltronas vermelhas vazias. A mensagem era direta: queriam que a defesa sustentasse amordaçada. Aqui não.
O gesto ecoa mais longe do que a comarca. Em todo tribunal do júri brasileiro existe a tensão estrutural entre a liberdade de acusação e a liberdade de defesa. Quando o promotor pode atacar a identidade profissional do advogado e a juíza intervém apenas contra quem reage, a paridade de armas deixa de ser princípio e vira formalidade. A máscara preta não é teatro. É o registro visual de uma assimetria que a ata oficial raramente captura. É a defesa dizendo, sem microfone e sem grito, que o silêncio imposto a um lado e a licença concedida ao outro não passam despercebidos. Não há, até agora, cobertura jornalística tradicional do episódio. A narrativa existe apenas nas vozes de quem esteve dentro do plenário. Isso não a torna menor. Torna-a mais urgente. Porque o júri popular é o único momento em que o poder de acusar e o poder de defender se enfrentam diante de cidadãos comuns. Quando esse equilíbrio se rompe, o que está em jogo não é só o destino de um réu. É a confiança de que a defesa ainda pode falar com a mesma liberdade com que a acusação ataca.

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