quinta-feira, 27 de agosto de 2026
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O PROGRESSISTAS APOSTA EM REALITY, HUMOR E INFLUENCER PARA PREENCHER SUAS CHAPAS NO PIAUÍ

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Foto · @obrowbrow | The BrOW Brasil

Ex-BBB, humorista de TikTok, influenciador bolsonarista e jovem repórter de Instagram formam o time diferente da sigla nas eleições de 2026 e revelam o novo cálculo da política que nasceu das redes. A cena é familiar. Um elenco que parece saído de um programa de auditório, com microfone aberto, piada pronta e rostos conhecidos de quem passa horas no celular. Só que desta vez o palco não é o da televisão nem o do TikTok. É a urna. O Progressistas no Piauí decidiu, nesta eleição, abrir espaço para nomes que chegam com público pronto nas redes sociais. Gyselle Soares, Bob Guerreiro, Antônio Cachorro e Trabulo Neto. Reality show, humor digital, discurso de direita e juventude. A fórmula está montada. Resta saber se ela funciona onde realmente importa.

Gyselle Soares é a peça de maior projeção do grupo. Vice-campeã do Big Brother Brasil 8, conhecida como Gyselle Cajuína, a piauiense de Teresina se filiou ao Progressistas e foi oficializada como candidata a deputada federal pela Federação União Progressista. Depois de anos transformando a visibilidade do reality em carreira artística, livros e projetos sociais, ela agora tenta converter essa mesma visibilidade em mandato. Fala em renovação, inclusão, saúde mental e direitos das mulheres. A trajetória é conhecida. O que ainda não se sabe é se a memória afetiva do público do BBB sobrevive ao filtro frio do voto proporcional. Ao lado dela, na mesma disputa pela Câmara, aparece Antônio Cachorro. Empresário, influenciador e voz crítica de direita, ele construiu audiência nas redes com discurso direto, antiestablishment e alinhado ao bolsonarismo. Já figura em pesquisas espontâneas, ainda que com percentuais modestos. Sua aposta é clara: o algoritmo como cabo eleitoral. O problema é antigo e se repete em todo o Brasil. O engajamento digital cria a ilusão de força. A urna cobra outra moeda.

Na Assembleia Legislativa a sigla investiu no humor. Bob Guerreiro, conhecido pelos vídeos de rotina e pelos personagens de TikTok, foi lançado candidato a deputado estadual. Em 2024, tentou a Câmara Municipal de Teresina e terminou com 360 votos. O número é revelador. Quase dois milhões de seguidores em determinado momento não se traduziram em apoio eleitoral concreto. Agora ele eleva a aposta e mira a Alepi. O caso de Bob resume a tensão central desta chapa. A internet entrega alcance. A política exige conversão.

Fecha o quarteto Trabulo Neto. Estudante de Direito, 20 anos, repórter de Instagram e ex-presidente do Progressistas Jovem no estado. Apresentado como a ponte com o eleitorado jovem, ele chega com o discurso de oposição e a promessa de percorrer os 224 municípios. A juventude é seu principal capital. Em um país onde a média de idade dos parlamentares ainda é elevada, a aposta faz sentido estratégico. Mas capital político se constrói com mais do que data de nascimento.

O que une esses quatro nomes não é a origem partidária tradicional nem o trânsito em máquinas eleitorais consolidadas. É a existência prévia de um público. Em tempos de esgotamento das lideranças clássicas, partidos de todo o espectro passaram a olhar para quem já conversa diariamente com milhares de pessoas. O Progressistas no Piauí apenas acelerou o movimento. SEGUIDOR VIROU CABO ELEITORAL. CURTIDA VIROU TERMOMETRO. MICROFONE DE REDE VIROU PALANQUE. Há uma lógica por trás dessa escolha. Em um sistema proporcional, cada voto conta e a pulverização de candidaturas é a regra. Trazer nomes com audiência própria reduz o custo de construção de reconhecimento. O risco, no entanto, é estrutural. A política institucional exige mais do que atenção. Exige organização territorial, capacidade de articulação, permanência e, sobretudo, a transformação de simpatia em compromisso de voto. A história recente brasileira está cheia de exemplos de influenciadores e celebridades que chegaram às redes com força e saíram das urnas com números irrisórios. O fenômeno não é exclusivo do Piauí. Em vários estados, partidos buscaram rostos digitais para renovar chapas e cumprir cotas. O que muda é a escala e o contexto local. No Piauí, a política ainda se move por redes de parentesco, prefeituras e lideranças regionais históricas. Inserir nomes que vêm de fora desse circuito tradicional é, ao mesmo tempo, ousadia e necessidade. Ousadia porque o eleitor piauiense costuma premiar quem já fez alguma coisa concreta. Necessidade porque a renovação de quadros não acontece sozinha. Há também uma dimensão psicológica em jogo. O eleitor contemporâneo vive em estado de saturação informativa. A atenção é o bem mais disputado. Quem consegue atravessar o feed diário com alguma regularidade parte com vantagem. Mas a mesma velocidade que constrói a fama digital é a que a dissolve. A memória afetiva de um reality de 2008, os vídeos engraçados de um humorista ou as lives de um influenciador de direita precisam sobreviver ao intervalo entre a curtida e a cabine de votação. Esse intervalo é onde a maioria das apostas digitais morre. O Progressistas, sob a liderança estadual de Joel Rodrigues e a sombra nacional de Ciro Nogueira, parece ter feito o cálculo frio. Prefere arriscar com quem já tem público do que insistir apenas em nomes que não conseguem furar a bolha. A chapa federal e a estadual da Federação União Progressista refletem essa decisão. Gyselle e Antônio Cachorro tentam Brasília. Bob Guerreiro e Trabulo Neto tentam a Assembleia. Quatro caminhos distintos, uma mesma lógica. O que se vê não é exatamente a morte da política tradicional. É a tentativa de colonizar o novo território da atenção. Se a experiência vai gerar mandatos ou apenas mais uma geração de candidaturas simbólicas, só as urnas de outubro vão dizer. Por enquanto, o que fica é a imagem de um partido que olhou para o elenco de um programa de auditório e decidiu que, em 2026, esse elenco poderia ser sua aposta de renovação.

A pergunta que permanece, silenciosa e necessária, é se a plateia que ri, curte e compartilha está disposta a atravessar a rua e votar. Porque uma coisa é ter seguidores. Outra, bem diferente, é ter voto.

A

assessoriabrowbrow

Redação The Brow Brasil — jornalismo, investigação e cultura.

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