Anomalia de até 3,8 °C no Pacífico, classificada como fora dos gráficos de monitoramento das últimas quatro décadas, eleva para 95% a chance de evento muito forte no país e projeta extremos opostos entre o Sul e o centro-norte, com efeitos que devem se estender pelo menos até o primeiro trimestre de 2027.
Brasília (DF) A Organização Meteorológica Mundial (OMM) classificou o atual El Niño como potencialmente inédito em intensidade desde que os registros modernos começaram, com a possibilidade de as temperaturas da superfície do mar no Pacífico tropical atingirem 3,8 °C acima da média entre novembro de 2026 e janeiro de 2027. A secretária-geral da OMM, Celeste Saulo, afirmou que o valor “está literalmente fora dos gráficos de monitoramento que usamos nas últimas quatro décadas” e que o pico deve ocorrer no fim de 2026, embora os impactos se prolonguem bem depois. A agência estima probabilidade próxima de 100% de persistência até fevereiro de 2027 e aponta que a anomalia média sazonal de outubro a dezembro já deve chegar a cerca de 3,7 °C, superando o recorde anterior de 2,6 °C registrado no episódio de 2015-2016. No Brasil, o quarto boletim do Painel El Niño 2026-2027, elaborado em conjunto por INPE, INMET, ANA, Cemaden, SGB, Sedec e Censipam, indica 95% de probabilidade de que o fenômeno alcance intensidade “muito forte” no trimestre outubro-novembro-dezembro. Confirmado oficialmente em junho de 2026, o evento já apresentava anomalias superiores a 2 °C no Pacífico equatorial no fim de setembro, segundo dados do CPC/NOAA. O painel projeta que, se confirmado, este poderá figurar entre os mais intensos desde 1950 e permanecer ativo pelo menos até o primeiro trimestre de 2027.
O contraste regional é o ponto mais nítido das projeções nacionais. No Sul, o boletim aponta maior probabilidade de chuvas acima da média, com risco de cheias que já se materializou em setembro em áreas do Vale do Taquari e ao longo do rio Caí, no Rio Grande do Sul, e em municípios de Santa Catarina. O risco de enchentes deve persistir, embora tenda a diminuir até dezembro. Em sentido oposto, o centro-norte do país, especialmente Norte e Nordeste, enfrenta condições mais secas, temperaturas acima da média e aumento do risco de fogo. Dados parciais de setembro do Cemaden mostram elevação no número de municípios em seca extrema e severa, com destaque para Amazonas, Roraima e Acre. Em Roraima, os níveis dos rios Branco e Negro permanecem baixos. O leste do Nordeste e parte do Sudeste aparecem com tendência de chuvas acima da média no mesmo trimestre. No campo, a Embrapa compilou 163 medidas de adaptação e as entregou ao Ministério da Agricultura e Pecuária para reduzir perdas em soja, milho, café e outras culturas. No Centro-Norte e no Matopiba, o risco principal é a combinação de chuvas abaixo da média e calor, que pode atrasar o plantio, comprometer o estabelecimento das lavouras e pressionar pastagens e rebanhos no Semiárido. No Sudeste, o período entre o fim de 2026 e o início de 2027 é considerado crítico para o café, coincidindo com floração e enchimento de grãos, quando temperaturas elevadas podem intensificar o estresse hídrico das plantas. No Sul, o excesso de umidade favorece, em princípio, o desenvolvimento inicial de soja e milho, mas eleva o risco de erosão, doenças fúngicas e dificuldades operacionais no campo; projeções citadas em análises técnicas apontam potenciais perdas de até 80% no trigo e 60% na aveia em estados como Rio Grande do Sul e Santa Catarina.
Além dos impactos diretos no clima e na produção, pesquisadores do Climate Impact Lab da Universidade de Chicago estimam que o calor adicional associado a este El Niño pode gerar até 451 mil mortes excessivas no mundo entre junho de 2026 e fevereiro de 2027 em comparação com um ano típico. O Brasil figura entre os países com projeção elevada, com cerca de 13 mil mortes adicionais relacionadas ao calor no período. A OMM e o coordenador de Ajuda de Emergência da ONU, Tom Fletcher, classificaram o evento como uma “bola de demolição” capaz de agravar necessidades humanitárias em várias regiões e pediram ação antecipada, destacando que a janela para preparação ainda está aberta, mas não permanecerá indefinidamente.
O fenômeno não cria calor planetário adicional, mas libera o que já está armazenado no oceano, que se encontra no nível mais quente já medido. A OMM ressalta que os efeitos podem se prolongar bem além do pico de dezembro de 2026, enquanto o Painel brasileiro reforça a necessidade de acompanhamento contínuo das condições meteorológicas, hidrológicas e de risco de desastres. Os órgãos oficiais recomendam que estados, municípios e produtores acompanhem os boletins atualizados e adotem medidas preventivas conforme as especificidades de cada região.

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