quinta-feira, 27 de agosto de 2026
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O DENTE QUE VOCÊ JOGOU FORA PODE TER SIDO UM DOS MAIORES TESOUROS DA MEDICINA MODERNA

6 min de leitura Verificado

Foto · @obrowbrow | The BrOW Brasil

O siso é arrancado todo dia em consultórios do mundo inteiro. O que ninguém te contou é o que estava escondido dentro dele.

Toda semana, milhões de dentes do siso são extraídos, embrulhados em gaze e descartados como lixo hospitalar. É o procedimento odontológico mais comum entre jovens de 17 a 25 anos, quase sempre tratado com anestesia, sorvete e alguns dias de desconforto. Mas por décadas, a medicina descartou junto com o dente algo que pesquisadores hoje chamam de ativo biológico de altíssimo valor: as células-tronco mesenquimais que vivem na polpa dentária. A DESCOBERTA QUE MUDA TUDO veio da Universidade do País Basco, na Espanha. Um estudo publicado na revista Stem Cell Research & Therapy revelou que a polpa interna do dente do siso não é apenas tecido vivo qualquer. Ela abriga células-tronco com potencial para regenerar tecidos do cérebro, do coração e dos ossos. O que tornou o estudo especialmente impactante foi um achado que parecia improvável: pesquisadores conseguiram transformar células da polpa dentária em neurônios funcionais, capazes de emitir sinais elétricos.

Para entender o peso disso, é preciso saber o que um neurônio funcional representa. O cérebro humano opera por meio de sinais elétricos entre células nervosas. Quando essas células morrem, como acontece no Alzheimer e no Parkinson, não existe regeneração natural. O organismo humano simplesmente não repõe neurônios perdidos. Por isso, a possibilidade de criar neurônios em laboratório a partir da polpa de um dente extraído durante uma cirurgia rotineira é, no mínimo, uma das descobertas mais relevantes da medicina regenerativa dos últimos anos.

O estudo foi liderado pelo professor Gaskon Ibarretxe, especialista em biologia celular e histologia. Para transformar as células dentárias em estruturas nervosas, os cientistas utilizaram substâncias como ácido retinoico e cloreto de potássio, que favoreceram o desenvolvimento de características neuronais. O resultado foram células que não apenas pareciam neurônios morfologicamente, mas que se comportavam como tal, emitindo os padrões elétricos que caracterizam a comunicação cerebral. AS APLICAÇÕES VÃO MUITO ALÉM DO CÉREBRO. Entre os achados mais impressionantes está a capacidade dessas células de estimular melhorias na função cardíaca, comprovada em testes com camundongos com insuficiência cardíaca. Em laboratório, as mesmas células também demonstraram capacidade de produzir camadas organizadas de colágeno e cálcio, tornando-se candidatas à regeneração de cartilagem articular, condição que afeta atletas e pacientes com doenças ortopédicas. No campo das doenças neurodegenerativas, os resultados são ainda mais expressivos. Pesquisas relacionadas ao Alzheimer indicam que essas células podem liberar fatores de crescimento capazes de proteger sinapses e reduzir inflamações cerebrais. Uma revisão publicada em 2024 destacou ainda sua capacidade de auxiliar na remoção de placas amiloides, associadas à progressão da doença. Testes iniciais relatados pela revista Nature Medicine mostraram que implantes de células-tronco sobreviveram em pacientes com Parkinson e passaram a liberar dopamina.

Dopamina. O neurotransmissor que o Parkinson destrói. Sendo produzida por células geradas a partir de um dente que seria jogado no lixo.

O BRASIL JÁ ESTÁ NESSA CORRIDA. Em 2020, no auge da pandemia de Covid-19, cientistas brasileiros da Curityba Biotech investigaram como as células-tronco mesenquimais encontradas em abundância no tecido bucal poderiam ajudar pacientes com síndrome respiratória aguda grave, com o objetivo de reequilibrar o sistema imunológico e reparar danos nos pulmões causados pela tempestade de citocinas do vírus. Esse movimento gerou também um mercado. O CCB, Centro de Criogenia Brasil, coleta, processa e armazena células-tronco mesenquimais extraídas da polpa do dente de leite e do siso desde 2013. A lógica é a mesma do banco de cordão umbilical: guardar o material biológico do próprio paciente enquanto jovem e saudável, para uso futuro em tratamentos que ainda estão sendo desenvolvidos. Empresas especializadas criaram o chamado banco de dentes, um serviço que armazena o material biológico de forma semelhante ao banco de cordão umbilical, uma espécie de seguro biológico para o futuro. Empresas de biotecnologia como a Stemodontics já oferecem kits para que o material dentário seja extraído, armazenado e transportado até laboratórios onde as células-tronco são isoladas e conservadas.

UM DETALHE QUE MUDA A EQUAÇÃO INTEIRA: por se tratar de células do próprio paciente, o risco de rejeição é praticamente inexistente, fator que amplia seu valor para aplicações futuras em medicina personalizada. Isso resolve um dos maiores obstáculos históricos da medicina regenerativa: a incompatibilidade imunológica entre doador e receptor. Quando o material vem do próprio corpo, o organismo não o ataca. A honestidade científica exige um aviso importante. Os especialistas alertam que o uso clínico das células-tronco dentárias ainda está em fase experimental. Estudos pré-clínicos indicam resultados promissores, mas a aplicação em humanos ainda requer testes de segurança e eficácia a longo prazo. O potencial é real, mas a medicina regenerativa baseada em dentes ainda não está disponível na prática odontológica ou médica.

Mas o que já está confirmado transforma a forma de ver o dente do siso para sempre. Por décadas, o destino de quase 10 milhões de sisos extraídos anualmente só nos Estados Unidos era o lixo hospitalar. Esse número representa, a cada ano, 10 milhões de fontes potenciais de células com capacidade regenerativa simplesmente descartadas. A ciência não está dizendo que o siso vai curar o Parkinson amanhã. Está dizendo algo talvez mais perturbador: QUE POR DÉCADAS JOGAMOS FORA, SEM QUESTIONAR, UM RECURSO BIOLÓGICO QUE PODE ESTAR ENTRE OS MAIS VALIOSOS QUE O CORPO HUMANO PRODUZ. E que a janela para preservá-lo, na maioria dos casos, fecha exatamente quando o dentista diz que chegou a hora de tirar.

A

assessoriabrowbrow

Redação The Brow Brasil — jornalismo, investigação e cultura.

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