sexta-feira, 28 de agosto de 2026
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Rio de Janeiro

RIO DE JANEIRO TEM UMA MÁQUINA DE CHUVA E ELA MATA POBRE ?

5 min de leitura Verificado

Foto · @obrowbrow | The BrOW Brasil

O asfalto e o concreto da cidade elevam a temperatura em até 10°c em bairros populares, e o geógrafo leandro levi mostra como esse calor vira tempestade, deslizamento e morte no mapa da desigualdade carioca

Era um dia comum no complexo do alemão. O sol batia vertical sobre o concreto às onze da manhã e a sensação térmica já ultrapassava os 45 graus. Não havia uma árvore sequer no campo de visão. As crianças brincavam sobre asfalto fervente enquanto, a menos de quinze quilômetros dali, ipanema respirava a brisa do atlântico sob a sombra generosa das amendoeiras da orla. Duas cidades. Uma temperatura. Destinos completamente opostos. E isso, segundo o geógrafo leandro levi, graduado e mestrando em geografia pela uerj-ffp, não é coincidência. É ARQUITETURA DO ABANDONO.

A física não mente e não tem partido. Pelo albedo baixo do concreto asfáltico, O RIO DE JANEIRO DESENVOLVEU UMA MÁQUINA CLIMÁTICA PRÓPRIA. A superfície impermeabilizada da cidade absorve calor em vez de refleti-lo, eleva a temperatura local e cria uma área de baixa pressão atmosférica em relação ao entorno imediato. Esse desequilíbrio faz exatamente o que nenhum planejamento urbano deveria permitir: puxa a chuva para cima de si mesmo. Transforma nuvem em tempestade. Transforma tempestade em morte. E escolhe, com precisão cirúrgica, em cima de quem essa morte vai cair. O dado que ninguém quer ver está no mapa térmico da cidade. As maiores temperaturas do rio de janeiro não estão no centro financeiro. Não estão na barra da tijuca. Estão em bangu, no méier, na penha, no complexo do alemão. A CONCENTRAÇÃO DE CALOR EXTREMO SEGUE O MESMO DESENHO DA CONCENTRAÇÃO DE POBREZA, e isso não é uma casualidade atmosférica. É o resultado direto de décadas de urbanização que plantou asfalto onde deveria haver árvore, que construiu laje onde deveria haver permeabilidade, que empurrou a população preta e pobre para os espaços onde o estado jamais investiu em infraestrutura verde.

Leandro levi é direto ao apontar a interseccionalidade que o poder insiste em ignorar: a população que habita as favelas cariocas é, em sua esmagadora maioria, preta. E É A POPULAÇÃO PRETA QUE MORRE DE CALOR, QUE MORRE DE ENCHENTE, QUE MORRE DE DESLIZAMENTO. A ciência deu nome a esse processo: racismo climático. Não é uma acusação. É uma categoria analítica que descreve como a exposição diferenciada a riscos ambientais extremos recai sistematicamente sobre corpos racializados. A classe dominante, que controla o estado e define as políticas públicas, ignora essa equação porque o custo político de resolvê-la é alto e o custo humano de ignorá-la recai sobre quem não tem voz nos corredores do poder. O padrão se repete e se confirma quando a análise escala para o território nacional. O brasil é um país litorâneo por imposição colonial. Sua população foi fixada na costa e, nessa faixa, o domínio morfoclimático predominante é o dos mares de morro, conceito do geógrafo aziz ab’sáber para descrever um relevo de encostas íngremes, úmido e intensamente acidentado. A regra histórica e geográfica é implacável: O RICO NUNCA OCUPOU ENCOSTA. O rico nunca ocupou várzea. O rico nunca ocupou margem de rio. Essas áreas foram destinadas, por omissão e por violência estrutural, à população que não tinha escolha. E quando a necessidade de morar força o desmatamento das encostas, as raízes que seguravam a terra desaparecem junto com a floresta. O que sobra é um talude esperando a próxima chuva para virar tragédia.

O complexo da maré é o símbolo final e mais cruel dessa equação. Uma comunidade de mais de 130 mil pessoas erguida sobre aterro, sobre o que um dia foi parte da baía de guanabara. QUANDO A MARÉ SOBE, A ÁGUA E O ESGOTO INVADEM AS CASAS. Quando a chuva extrema se soma à maré alta, o resultado é uma inundação que mistura rio, mar e esgoto dentro da sala, dentro do quarto, dentro da vida de quem ali mora. E o sistema registra. Contabiliza. E segue em frente como se aquilo fosse natural. Como se pobreza e enchente fossem sinônimos inevitáveis e não o produto de uma escolha política centenária.

O novo normal climático chegou sem pedir licença e sem trazer soluções para quem mais precisa. As ondas de calor estão mais longas. As chuvas estão mais intensas. Os deslizamentos estão mais frequentes. E a orientação que chega para a população vulnerável é comprar ar-condicionado e desobstruir bueiro. Comprar ar-condicionado sem ter renda. Desobstruir bueiro sem ter saneamento. O ABISMO SOCIAL FOI PAVIMENTADO, CIMENTADO E IMPERMEABILIZADO. E sobre esse abismo, a máquina de chuva do rio de janeiro continua funcionando, implacável, produzindo tempestades sobre os mesmos telhados de sempre. O ar que se respira no alemão não é o mesmo ar que se respira no leblon. O chão que treme sob os pés em nova iguaçu não é o mesmo chão firme de botafogo. A próxima tempestade já está sendo fabricada agora, neste exato momento, pelo calor que emana do asfalto de bangu enquanto você lê este texto. A QUESTÃO NÃO É SE ELA VAI CHEGAR. A questão é que todos nós já sabemos em cima de quem ela vai cair.

A

assessoriabrowbrow

Redação The Brow Brasil — jornalismo, investigação e cultura.

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