A história completa de uma artista que atravessou quatro décadas, construiu um dos maiores impérios do entretenimento latino-americano e entrou para a história antes mesmo de terminar a carreira.
ANTES DO FENÔMENO, HAVIA UM VÁCUO
Para entender o que Xuxa fez, é preciso entender o que existia antes dela.

Em junho de 1986, a televisão infantil brasileira era um território de fronteiras bem definidas e ambições modestas. O Balão Mágico ocupava as manhãs da Globo desde março de 1983, criando um fenômeno genuíno com Simony, Fofão e a Turma, que chegaram a vender 7,8 milhões de discos em cinco anos. O SBT tinha o Dó Ré Mi Fá Sol Lá Simony. A TV Manchete apostava no Clube da Criança. A TV Cultura cultivava um estilo mais educativo. Eram atrações respeitáveis. Mas o modelo era basicamente o mesmo desde os anos 1960: crianças reunidas em torno de músicas, desenhos importados e brincadeiras previsíveis.
A criança, naquele formato, era essencialmente espectadora.
Nenhuma dessas atrações havia entendido algo que Xuxa Meneghel percebeu desde o primeiro dia, intuitivamente, quase por instinto: UMA CRIANÇA NÃO QUER SER ENSINADA. ELA QUER SER VISTA.

Quando o Xou da Xuxa entrou no ar, na manhã de 30 de junho de 1986, e uma jovem loira de 23 anos desceu da nave sorrindo para o caos organizado de um auditório lotado de crianças, algo se partiu na televisão brasileira. O que veio a seguir não foi apenas um programa. Foi uma reconfiguração completa de como o entretenimento infantil poderia funcionar: comercialmente, emocionalmente, esteticamente.
A MENINA DE SANTA ROSA

Maria da Graça Meneghel nasceu em 27 de março de 1963, em Santa Rosa, interior do Rio Grande do Sul, filha de descendentes de italianos e alemães. A combinação étnica que marcaria sua aparência, o cabelo loiro, os olhos claros, a pele branca, viria a se tornar um dos elementos mais comentados e, décadas depois, mais questionados de sua trajetória pública. A família se mudou para o Rio de Janeiro ainda na infância dela. Foi lá que, aos 16 anos, em um trem, o acaso fez seu papel: profissionais do mercado de moda a observaram e a convidaram para testes. Era 1979. O Brasil vivia o fim da ditadura militar e o Rio de Janeiro era a capital cultural mais vibrante da América do Sul.
Xuxa construiu uma carreira sólida como modelo ao longo dos anos seguintes, passarelas, campanhas e capas de revistas famosas. Trabalhou também em Nova York, dividindo a semana entre os dois países. Mas foi em 1983, quando a TV Manchete a convidou para apresentar o Clube da Criança aos fins de semana, justamente porque sua agenda de modelo em Nova York impossibilitava uma presença diária, que a história tomou um rumo definitivo.
Ela escolheu a televisão. NÃO FOI APENAS UMA DECISÃO DE CARREIRA. FOI UM CHAMADO.
A MANCHETE E O LABORATÓRIO

O Clube da Criança na TV Manchete foi o laboratório onde Xuxa aprendeu o idioma que a tornaria inigualável. A atração funcionava de modo rudimentar: auditório, brincadeiras, música. Mas Xuxa introduziu algo que não estava no roteiro. Ela realmente conversava com as crianças. Olhava nos olhos. Usava a linguagem delas. Inventava palavras no diminutivo que viriam a criar um léxico próprio: baixinhos, xuxinha, beijinhos. Foi também na Manchete que nasceram as Paquitas, não por planejamento estratégico, mas por necessidade prática. Xuxa tinha dificuldade para controlar o caos de crianças no estúdio, e a solução encontrada pela produção foi introduzir ajudantes para organizar o espaço. A primeira foi Andréa Veiga, que recebeu o apelido vindo de Paquito, um papagaio fantoche de estimação de Xuxa que fingia ser apaixonado pela garota. Assim nasceu o nome que atravessaria décadas.
A crítica especializada da época olhava com desconfiança. Intelectuais viam no programa uma linguagem rasamente comercial, sem profundidade educativa. O público ignorou a crítica. As crianças simplesmente amavam.
A REDE GLOBO ASSISTIA ATENTAMENTE.
O XOU DA XUXA: 2.000 EDIÇÕES QUE MUDARAM A TELEVISÃO BRASILEIRA

A Globo foi buscar Xuxa na Manchete oferecendo um salário três vezes maior do que ela recebia. O contrato foi assinado, e a estreia do Xou da Xuxa aconteceu em 30 de junho de 1986, às 8h da manhã, no Teatro Fênix, no Rio de Janeiro. O programa substituía o Balão Mágico, herdando seu horário, sua fatia de público e seu acervo de desenhos. O formato do Xou era um bloco compacto de emoções, exibido de segunda a sábado: competições, números musicais, quadros de auditório, desenhos animados e a presença constante das Paquitas. A nave, estrutura cenográfica em forma de disco voador, tornava-se o símbolo visual do programa. Ironicamente, a nave quebrava constantemente. A porta travava, a estrutura precisava ser empurrada manualmente nos bastidores. Em diversas gravações, a produção precisou improvisar para que a apresentadora conseguisse fazer sua entrada ou saída triunfal. Ninguém sabia. A câmera nunca mostrava o que acontecia fora do campo de visão das crianças.
A Globo foi buscar Xuxa na Manchete oferecendo um salário três vezes maior do que ela recebia. O contrato foi assinado, e a estreia do Xou da Xuxa aconteceu em 30 de junho de 1986, às 8h da manhã, no Teatro Fênix, no Rio de Janeiro. O programa substituía o Balão Mágico, herdando seu horário, sua fatia de público e seu acervo de desenhos. O formato do Xou era um bloco compacto de emoções, exibido de segunda a sábado: competições, números musicais, quadros de auditório, desenhos animados e a presença constante das Paquitas. A nave, estrutura cenográfica em forma de disco voador, tornava-se o símbolo visual do programa. Ironicamente, a nave quebrava constantemente. A porta travava, a estrutura precisava ser empurrada manualmente nos bastidores. Em diversas gravações, a produção precisou improvisar para que a apresentadora conseguisse fazer sua entrada ou saída triunfal. Ninguém sabia. A câmera nunca mostrava o que acontecia fora do campo de visão das crianças.
Em seis anos e meio, o Xou da Xuxa produziu exatamente 2.000 edições. Nos picos de audiência, o programa chegava a 35 pontos no IBOPE, em uma época em que a televisão aberta era, literalmente, o único entretenimento da manhã para milhões de famílias brasileiras. As crianças organizavam o horário escolar em torno do programa. As mães ligavam a televisão enquanto arrumavam os filhos. Era uma presença doméstica, quase um membro da família.

O último programa foi ao ar em 31 de dezembro de 1992, com um reencontro surpresa entre Xuxa e seu pai, organizado pela diretora Marlene Mattos sem o conhecimento da apresentadora. Xuxa revelaria décadas depois que se sentiu invadida: a estratégia tinha como objetivo aumentar a audiência na despedida do programa. Era o retrato de uma relação complexa que alimentou o maior sucesso da televisão brasileira e, eventualmente, se partiu.
AS PAQUITAS: UM FENÔMENO DENTRO DO FENÔMENO

Nenhuma outra criação do universo Xuxa teve vida própria tão intensa quanto as Paquitas. O que começou como uma solução logística para controlar o auditório tornou-se um dos maiores fenômenos da televisão brasileira, um grupo que gerou fandom, produtos, concursos públicos e, três décadas depois, documentários no Globoplay.
Em 1987, Marlene Mattos organizou o primeiro concurso público para selecionar novas Paquitas. A vencedora foi Ana Paula Guimarães, conhecida como Catuxa. A competição gerou polêmica desde o início. O personagem Dengue, do próprio programa, declarou abertamente que não acreditava que uma garota do interior pudesse ser escolhida. Ela foi escolhida.

A primeira geração incluiu nomes que seguiriam carreiras longas na televisão: Letícia Spiller, Bianca Rinaldi, Bárbara Borges e Cátia Paganote. A rotatividade era média de dois a quatro anos por integrante. As garotas com trajetória mais longa foram Roberta Cipriani e Priscilla Couto, que permaneceram oito anos como Paquitas, de 1987 até 1995. A rotina das Paquitas era exaustiva. Gravações diárias, ensaios, gravação de discos, viagens internacionais, tudo isso conciliado com a escola, porque as garotas eram adolescentes em idade escolar. O ambiente teve episódios de rivalidade entre as próprias Paquitas, cobranças intensas e toda a pressão de quem ocupava um espaço desejado por milhares de meninas em todo o Brasil.

Em 29 de abril de 1995, todas as Paquitas da primeira geração foram dispensadas no mesmo episódio do Xuxa Park. Nesse mesmo dia foi anunciada a nova formação, com sete novas integrantes: Diane Dantas (Lady Di), Andrezza Cruz (Dezza), Caren Lima (Chaveirinho), Bárbara Borges (Babubonitona), Graziella Schmitt (Grazi Modelão), Gisele Delaia (Miss Queimados) e Vanessa Melo (Flashdance).
SER PAQUITA ERA O SONHO DECLARADO DE UMA GERAÇÃO INTEIRA DE MENINAS BRASILEIRAS. UM SONHO QUE TINHA UNIFORME VERMELHO, APELIDO COM X E ACESSO AO PALCO MAIS DESEJADO DO PAÍS.
A MÁQUINA DE DISCOS: 28 MILHÕES DE CÓPIAS

Xuxa não se considera cantora. Ela mesma disse isso publicamente: “Tentei ser cantora. Não sou. Eu sou vendedora de discos. Eu sei o tamanho da minha voz, mas não sei o tamanho do meu público.” A frase é perfeita porque é precisa: Xuxa não tinha uma voz excepcional pelos parâmetros técnicos do mercado fonográfico. Mas vendeu mais discos do que a maioria dos artistas que a têm. Os números confirmados pela gravadora Som Livre, que em 2025 entregou um prêmio comemorativo à artista, somam 28 milhões de cópias físicas vendidas e mais de 10 bilhões de streams ao longo de toda a carreira, tornando Xuxa um dos artistas recordistas em vendas de discos no mundo.
A série Xou da Xuxa, sete volumes lançados entre 1986 e 1992, é o coração dessa discografia. Os números por álbum revelam uma trajetória impressionante: o primeiro álbum, de 1986, vendeu 2,6 milhões de cópias. O segundo, de 1987, chegou a 2,8 milhões. O terceiro, de 1988, bateu 3,2 milhões. O Xou da Xuxa 3 fez com que Xuxa entrasse no Guinness Book como recordista de vendas, com hits como Ilariê, Arco-Íris, Abecedário da Xuxa e Brincar de Índio. Ilariê chegou a ser regravada em mais de 70 idiomas, do chinês ao alemão. O quarto álbum, de 1989, alcançou 2,9 milhões. A série completa dos sete volumes chegou a 18 milhões de cópias somadas.

QUATRO DOS DEZ ÁLBUNS MAIS VENDIDOS DA HISTÓRIA DO BRASIL PERTENCEM A XUXA. Ao longo de toda a carreira, Xuxa lançou 38 álbuns de estúdio, 13 compilações e oito álbuns em espanhol, além de mais de 200 videoclipes e 110 singles. Conquistou 224 discos de ouro, 82 de platina e 12 de diamante. Dois Grammys Latino de Melhor Álbum Infantil pelas edições 2 e 3 do Xuxa Só para Baixinhos. Uma carreira musical construída não por talento vocal convencional, mas por algo mais raro: a capacidade de transformar uma canção simples em memória de infância.
O CINEMA: 37 MILHÕES NAS SALAS ESCURAS
Em 1988, Super Xuxa Contra o Baixo Astral foi lançado em 93 cinemas simultaneamente, o maior lançamento de um filme brasileiro até então. Na primeira semana, o longa vendeu mais de 100 mil ingressos. Ao final da temporada, chegou a 2,8 milhões de espectadores. Em 1990, Lua de Cristal redefiniu o que um filme infantil brasileiro poderia ser. O longa foi lançado em um momento historicamente adverso para o cinema nacional, com o país vivendo uma severa recessão econômica e o governo Collor tendo praticamente paralisado a produção audiovisual brasileira. Mesmo assim, bateu recordes: com mais de 5,1 milhões de espectadores, foi o filme brasileiro mais visto de 1990 e garantiu à Xuxa a maior bilheteria da década no país. Um recorde que permaneceu por 16 anos no cinema nacional.
No total, seus filmes atraíram mais de 37 milhões de pessoas aos cinemas brasileiros, uma das maiores médias de público da história do cinema nacional.
O IMPÉRIO: MAIS DE US$ 3 MILHÕES POR MÊS
Em 1991, no auge de sua carreira, Xuxa recebia mais de US$ 3,4 milhões mensais somando os contratos com a Globo, com a Telefe argentina e com a Telecinco espanhola. Entre 1991 e 1992, recebia US$ 1 milhão mensais apenas pelo trabalho na emissora argentina. Naquele mesmo ano, a revista Forbes publicou sua lista de celebridades mais bem pagas do mundo. Na 37ª posição, com uma renda anual estimada em US$ 19 milhões, aparecia pela primeira vez uma latino-americana: Xuxa Meneghel. Abaixo dela na lista estavam Mel Gibson e Matt Groening, o criador dos Simpsons. Ela tinha 27 anos. O licenciamento de produtos foi outro pilar do império. Em 1991, as sandálias plásticas com a marca Xuxa venderam 1,5 milhão de pares apenas nos Estados Unidos. A holding que controlava o licenciamento empregava mais de 500 pessoas. Nos anos de ouro, a marca Xuxa estava presente em brinquedos, roupas, calçados, revistas, cosméticos, alimentos e materiais escolares. Chegou a vender 400 mil gibis por dia. Em 1992, a Telecinco espanhola pagou US$ 240 mil por episódio para ter o Xuxa Park na grade. Naquele mesmo período, o programa na Argentina batia 44 pontos de audiência média, sendo transmitido para 17 países da América Latina e para o mercado hispânico nos Estados Unidos.
A fortuna de Xuxa, construída por diferentes caminhos, chegou a uma estimativa de US$ 250 milhões em patrimônio, tornando-a mais rica do que Julia Roberts, que possuía cerca de US$ 200 milhões na época.
MARLENE MATTOS: A SOMBRA QUE FEZ E DESFEZ

Nenhuma análise da carreira de Xuxa é completa sem falar de Marlene Mattos, a diretora que começou a trabalhar com Xuxa na TV Manchete em 1983 e se tornaria simultaneamente o maior impulsionador e o maior ponto de tensão de sua trajetória.Marlene era o lado calculista da operação. Enquanto Xuxa seduzia, Marlene negociava. Enquanto Xuxa sorria para as câmeras, Marlene construía o aparato de licenciamento, gerenciava os contratos e tomava decisões editoriais que moldavam cada aspecto da imagem pública da apresentadora. Ela era, ao mesmo tempo, chefe, empresária, diretora e madrinha de Sasha, filha de Xuxa. O fim da parceria aconteceu em 2002. Anos depois, Xuxa revelou: “Eu nunca soube o que ganhava ou quanto meu show lucrava. Fui tão inocente que me roubaram muito. Eu trabalhei na Argentina, nos EUA, na Espanha e, depois de um curto período de tempo, a única coisa que encontrei foram dívidas.” As duas ficaram 19 anos sem contato, até se reencontrarem para as gravações do documentário Xuxa no Globoplay. Sobre o período em que Marlene foi empresária da apresentadora, a diretora do documentário descreveu: a Xuxa se sentiu muito invadida pela Marlene, no âmbito pessoal e profissional, com decisões sendo tomadas também sobre sua vida pessoal.
A RELAÇÃO ENTRE XUXA E MARLENE MATTOS É UM DOS CAPÍTULOS MAIS COMPLEXOS DA HISTÓRIA DO ENTRETENIMENTO BRASILEIRO. SEM MARLENE, XUXA TALVEZ NÃO TIVESSE CONSTRUÍDO O IMPÉRIO. COM ELA, PERDEU PARTES DO CONTROLE SOBRE A PRÓPRIA VIDA.
O BRASIL E O MUNDO: UM NOME EM 17 PAÍSES

Em 1991, Xuxa estreou na TV argentina com o El Show de Xuxa, exibido pela Telefé, a maior emissora do país. O programa conquistou a grade de 17 países latinos e ainda o mercado hispânico nos Estados Unidos. A versão argentina foi um fenômeno, atingindo 44 pontos de audiência média, mais do que os 35 pontos que o Xou da Xuxa alcançava no Brasil. Em 1992, Xuxa lançou o programa Xuxa Park na Espanha, na Telecinco. Nesse período, passava 15 dias no Brasil e 15 dias na Argentina, e ainda gravava uma vez por mês na Espanha. Ela se dividia para dar conta de cinco programas simultâneos. A loira também ganhou um programa em inglês nos Estados Unidos, que não obteve o sucesso esperado. A razão documentada foi que a produtora americana não quis enfrentar a concorrência que a chegada de Xuxa havia gerado entre os gigantes do entretenimento infantil americano. Em seu auge, Xuxa atingia 100 milhões de telespectadores diariamente no total de todos os seus programas simultâneos, tornando-se a apresentadora brasileira de maior alcance de todos os tempos.
A CRISE, A REINVENÇÃO E OS 29 ANOS NA GLOBO

Em março de 2015, depois de 29 anos na Globo, Xuxa assinou contrato com a Record TV, considerada uma das maiores contratações da história do canal. Sua chegada à emissora para assinar o vínculo foi transmitida ao vivo. O programa estreou na vice-liderança com 11,4 pontos de média, mas foi decaindo ao longo das edições. Em dezembro de 2016, o programa encerrou. Em 2020, o contrato com a Record não foi renovado. Em janeiro de 2021, Xuxa fechou uma parceria com o Globoplay para um documentário sobre sua trajetória, com produção e direção de Pedro Bial. Foi a versão mais honesta e vulnerável da artista: as polêmicas da carreira, a relação com Marlene, os amores com Pelé e Ayrton Senna, a maternidade e a jornada de uma mulher que foi, por décadas, um produto tão meticulosamente construído que às vezes o produto ofuscou a pessoa.
O QUE XUXA REPRESENTA: ANÁLISE CULTURAL

Xuxa operou em um contexto específico: o Brasil da redemocratização, dos anos 1980, da TV aberta como único ecossistema de entretenimento de massa. Naquele universo, qualquer coisa que chegasse às manhãs da Globo chegava ao país inteiro. Ela entendeu esse mecanismo melhor do que qualquer produtor ou executivo da época. Ela foi também uma das primeiras celebridades brasileiras a entender que uma personalidade pode ser um produto, não no sentido pejorativo, mas no sentido estrutural. ANTES DO CONCEITO DE MARCA PESSOAL EXISTIR EM LIVROS DE MARKETING, XUXA JÁ GERENCIAVA A SUA COM UMA PRECISÃO QUE HOJE SERIA ESTUDADA EM ESCOLAS DE NEGÓCIOS. O padrão estético promovido pelo programa foi questionado por estudiosos de comunicação e diversidade racial ao longo das décadas. A própria Xuxa, com o tempo, reconheceu publicamente que esses elementos de sua imagem e de suas escolhas editoriais antigas carecem de revisão crítica. A autoconsciência sobre o próprio legado é, em si, parte do legado. O QUE PERMANECE, PARA ALÉM DE QUALQUER DISCUSSÃO, É O DADO CULTURAL BRUTO: XUXA MENEGHEL É UMA DAS POUCAS FIGURAS DA HISTÓRIA BRASILEIRA QUE ATRAVESSOU GERAÇÕES DE FORMA ATIVA. PAIS QUE CRESCERAM COM O XOU DA XUXA HOJE LEVAM FILHOS AOS SHOWS. UMA CANÇÃO LANÇADA EM 1988 AINDA É CANTADA EM 2026. ISSO NÃO É NOSTALGIA. É PERMANÊNCIA.
O ÚLTIMO VOO DA NAVE

A turnê não é uma despedida simples. É um balanço. Uma prestação de contas com quatro décadas de história, com as pessoas que foram Paquitas, com as músicas que atravessaram gerações, com o Brasil que cresceu acordando cedo para assistir a uma nave pousar num teatro do Rio de Janeiro.

Quando se somam os números, 28 milhões de discos, 37 milhões de espectadores nos cinemas, 2.000 edições do Xou da Xuxa, 100 milhões de telespectadores diários no auge internacional, duas entradas na Forbes, patrimônio estimado em R$ 1,3 bilhão, dois Grammys Latino, o que se tem não é apenas uma carreira bem-sucedida. É uma das maiores construções do entretenimento latino-americano do século XX.
A nave pode estar fazendo seu último voo. Mas os 40 anos de história que ela carrega não terminam quando o motor para.
ELES FICAM. COMO FICAM TODAS AS COISAS QUE ENTRAM VERDADEIRAMENTE PARA A HISTÓRIA DE UM PAÍS.

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