A conta da urna não transfere o sufrágio da deputada para Júlio César Filho. O que circula é outra coisa: a suspeita de que a legenda dela sirva de escada para o herdeiro, enquanto a campanha que ela construiu no Sul do Estado fica em segundo plano.A pergunta já não é só técnica. Corre a especulação de que Simone Pereira, 55255, estaria sendo usada para eleger Júlio César de Carvalho Lima Filho, 55555, filho do deputado federal Júlio César. Os dois disputam deputado estadual pelo PSD. A leitura maliciosa é direta. A votação que ela juntou na reeleição engrossaria a legenda, e a cadeira sobraria para o filho.

A regra desmente a transferência e não apaga o atalho. Quem confirma 55255 vota em Simone. O voto fica no nome dela e, ao mesmo tempo, entra na soma do PSD, junto com os demais candidatos da sigla e com quem digita só 55. É essa soma que define quantas cadeiras o partido leva. As vagas vão para os mais votados da própria legenda, desde que cada um tenha, em regra, pelo menos 10% do quociente eleitoral em voto nominal. Sem esse piso, a cadeira aberta por ela não cai no colo de ninguém. Com esse piso, e com ela na frente, o próximo da fila pode sentar. A especulação mora exatamente aí. Simone não chegou a essa fila por acaso. Buscou a reeleição de forma incisiva, em campanha de longo prazo, e o mandato deixa rastro. Investimentos que saltam aos olhos nos municípios do Sul do Estado, em Bertolínia, em Canavieira e em outras cidades da região, sustentam o argumento de quem a vê como merecedora da vitória. Não é fogo de palha. É parlamentar que o eleitorado dessa área já mede pelo que chegou ao chão.

Se a legenda dela virar degrau para o filho, o efeito político não fica na planilha do TSE. O eleitorado dessa região tenderia a se voltar contra Júlio César e contra a família. A ânsia de colocar os filhos na política, de ocupar o espaço com o clã e de deixar de fora a mulher que exerce o mandato com competência, seria lida como uso. Simone como palha. Os herdeiros como colheita. Egoísmo, no julgamento desse eleitorado, e egoísmo que não pararia no sobrenome César. Alcançaria Georgiano Neto, se a articulação da legenda passasse por ele. A urna, por enquanto, não faz esse traslado. Faz a soma. E é na soma que a desconfiança se alimenta: uma candidata que trabalhou a reeleição e entregou obra no Sul pode abrir cadeira. Quem ocupa essa cadeira, se não for ela, é decisão da fila interna do PSD. O eleitor que aperta 55255 ainda vota em Simone Pereira. O que esse voto faz a mais é a pergunta que a especulação não quer deixar morrer.

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