Candidata a deputada federal pelo Avante, número 7099, divide a chapa 70 com os tios Professor Zenivan (7088) e Marcos Canguru (7011), é sobrinha da vereadora petista Dalvina Trindade e apresenta projeto de mandato em sete eixos para proteger e dar autonomia às mulheres do Piauí
Uma mulher denuncia o companheiro em um município piauiense sem delegacia especializada. Ela percorre dezenas de quilômetros para registrar a queixa, volta para casa sem proteção e, semanas depois, precisa contar tudo de novo a outro servidor. A cena se repete em diferentes cidades do país, e é dela que parte o projeto de mandato “Por Elas, Pelo Piauí”, de Samara Oliveira, natural de Bertolínia. Samara entra na disputa com uma frase que resume o tom da candidatura. Segundo ela, esta é SÓ O COMEÇO DA SUA CAMINHADA POLÍTICA. Não é uma campanha desenhada apenas para a urna deste ano. É uma campanha desenhada para ser vista. O raciocínio é declarado sem rodeios. Muita gente diz que ela não ganha, e ela sabe disso. Mas a ideia de vitória da candidata passa por APARECER, devagar e no momento certo. Em um estado onde a política costuma ser herdada, aparecer já é um primeiro movimento de conquista. A herança, aliás, pesa a favor. Samara é sobrinha da vereadora Dalvina Trindade, do PT, e carrega o sobrenome de uma família de peso na região. Os Trindade também são parentes do advogado Marcelo Trindade, nome conhecido do meio jurídico local. Ela vem, como se diz, com acervo. O contraste é curioso: a sobrinha de uma vereadora petista disputa pelo Avante, que no cenário nacional caminha com a candidatura presidencial de Augusto Cury, o número 70, tendo Júlio Delgado como vice. A chapa é, de fato, um negócio de família. Os três nomes disputam uma vaga de deputado federal pelo mesmo partido. O Professor Zenivan, número 7088, vem como representante do grupo e assina o slogan “A voz do Cerrado piauiense no Congresso Nacional”. Marcos Canguru, número 7011, é irmão do professor e vem à frente da campanha, com o canguru como símbolo e o lema “O pulo da mudança”. Em seu material, Canguru associa a candidatura ao nome de Antônio Lira, candidato ao Senado pelo número 700. E Samara, número 7099, é sobrinha dos dois. A divisão de papéis nas redes é outra. É ela quem toma a frente do digital, enquanto Canguru ocupa a linha de frente do corpo a corpo e Zenivan carrega a representação institucional do grupo. A família entra com a estrutura, e a candidata, com a imagem. Há uma lógica eleitoral por trás dessa arquitetura. Na eleição proporcional, os votos de todos os candidatos de um partido se somam para definir quantas cadeiras a legenda conquista. Três nomes da mesma família, com números vizinhos, cobrem territórios e públicos diferentes e alimentam o mesmo caixa de votos. O professor fala ao eleitor do Cerrado, o Canguru, ao eleitor do pulo da mudança, e ela, às mulheres e ao público mais jovem das redes. É uma divisão de trabalho, não uma competição entre parentes. A estratégia ensina algo sobre a política do interior. Em cidades pequenas, a confiança nasce do nome, do parentesco e da presença. Uma candidatura feminina e familiar combina os três elementos. E a campanha quer provar mais uma coisa: que ela NÃO TEM MEDO DA POLÍTICA. O gesto importa porque a política ainda afasta mulheres por meio de ameaça, desgaste e ataque pessoal. É nesse ponto que a plataforma ganha sentido. O projeto de mandato nasce de uma tese simples: proteger a mulher e ampliar sua autonomia são a mesma tarefa. Não existe empoderamento para quem vive sob ameaça. E não existe proteção duradoura para quem depende financeiramente do agressor. O programa se organiza em sete eixos: proteção e combate à violência, autonomia econômica, saúde e dignidade, representação e educação, igualdade e diversidade, moradia e segurança no cotidiano, e cultura, esporte e comunicação. São dezenas de ações que atravessam a capital, o interior e o campo. No eixo da proteção, o texto prevê emendas para delegacias especializadas com funcionamento 24 horas, Patrulha Maria da Penha nos polos regionais, casas-abrigo com acolhimento sigiloso, botão do pânico e monitoramento de agressores. Prevê também um protocolo de avaliação de risco no primeiro atendimento e atendimento itinerante para municípios que nunca tiveram uma delegacia da mulher.
No eixo econômico, a aposta é na independência financeira como porta de saída. Microcrédito orientado, qualificação em horários compatíveis com a rotina de quem cuida de filhos, fiscalização da Lei de Igualdade Salarial e apoio às quebradeiras de coco, agricultoras familiares e extrativistas. O projeto propõe ainda que parte da merenda escolar e das compras públicas venha de cooperativas de mulheres, e defende creche em tempo integral como política de emprego feminino. O terceiro eixo trata do corpo e da mente, com exames preventivos por carretas e mutirões no interior, pré-natal de qualidade, atendimento psicológico para vítimas e mães atípicas e combate à pobreza menstrual. O que diferencia o documento está na camada seguinte, a das desigualdades que se sobrepõem. Mulheres negras, quilombolas, indígenas, idosas e com deficiência enfrentam barreiras próprias para denunciar, se tratar e trabalhar. O texto prevê intérprete de Libras, acessibilidade em abrigos e combate ao machismo e ao racismo institucional nos atendimentos. É uma admissão incômoda: muitas vezes, o serviço que deveria acolher é o primeiro obstáculo. Há ainda uma camada sociológica que costuma ficar fora dos programas de segurança. O projeto reconhece o trabalho de cuidado não remunerado como parte do problema, defende uma política nacional de cuidados e propõe ampliar a licença-paternidade. Trata da violência política de gênero e da violência digital, com punição mais firme para vazamento de imagens íntimas e deepfakes. O ponto mais honesto do documento é uma limitação que ele mesmo declara. UMA DEPUTADA FEDERAL NÃO EXECUTA POLÍTICAS PÚBLICAS. Quem constrói delegacias, contrata policiais e mantém abrigos são o governo estadual e as prefeituras. Por isso o mandato se apoia em quatro instrumentos: leis, emendas, fiscalização e articulação institucional.

No campo legislativo, são quinze propostas, entre elas prioridade de matrícula em creche para filhos de mulheres sob medida protetiva, atendimento reservado que dispense a vítima de repetir o relato e dados de violência desagregados por raça, idade, deficiência e município. Esse último item parece técnico, mas muda o debate. Sem dado desagregado, o interior some das estatísticas, e o que não aparece nos números dificilmente recebe recurso. Nas emendas, o mandato promete critérios técnicos, prioridade aos municípios com maior violência e menor estrutura, preferência por serviços contínuos em vez de obras inauguráveis e publicação aberta de cada valor aplicado. A régua de cobrança está no próprio texto: dez indicadores, entre eles o número de municípios com serviço especializado, a queda nos feminicídios e o tempo de resposta a pedidos de proteção. A comparação histórica dimensiona o desafio. A Lei Maria da Penha completou quase duas décadas e a Lei do Feminicídio, mais de dez anos. O país tem leis robustas, mas a distância entre a norma e a porta da delegacia do interior continua enorme. No Piauí, essa distância se mede em quilômetros e em horas de estrada. Resta a pergunta que a campanha, por estratégia ou por convicção, deixa no ar. Se vencer, para Samara, é aparecer no momento certo, o que acontece quando o momento chega e as mulheres do interior ainda esperam por uma delegacia aberta? A resposta não depende do resultado de outubro. Depende de quanto do projeto sairá do papel.

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