A campanha a deputada federal recebeu 97,82% do dinheiro da direção nacional do PP, declarou R$ 519 mil em despesas e foi homologada como inapta pelo TRE-PI. O caso recoloca sob a mesa o Fundo Eleitoral de R$ 4,9 bilhões, as cotas de R$ 20 mil e os partidos que enchem chapa sem eleger ninguém no Estado. Gyselle Soares Estevão, nome de urna Gyselle Cajuína, número 1112, pediu à Justiça Eleitoral a renúncia da candidatura a deputada federal pelo Progressistas no dia 21 de setembro de 2026. O Tribunal Regional Eleitoral do Piauí homologou o pedido no dia seguinte. Faltavam 12 dias para o primeiro turno, marcado para 4 de outubro.
Até ali, a campanha já havia declarado R$ 895.175,67 em receitas e R$ 519.629,04 em despesas. Da receita, R$ 875.675,67 vieram da Direção Nacional do Progressistas. São 97,82% do total. O TRE atualizou o registro para inapto. Inapto, neste caso, não é cassação, não é indeferimento e não é condenação. É a sequência jurídica da própria desistência: deferida, renúncia, homologação, inapta. A homologação impede que ela dispute o mesmo cargo nesta eleição. A saída não apaga a prestação de contas. Recursos do Fundo Especial de Financiamento de Campanha que sobrarem não viram sobra de partido. O TSE determina o recolhimento integral ao Tesouro Nacional, por GRU, no momento das contas. Recursos do Fundo Partidário não usados voltam à conta da legenda. São dois bolsos diferentes. Misturá-los é o primeiro erro de quem lê só o total. Dos R$ 875.675,67 do PP nacional, o detalhamento publicado pelo 180graus aponta R$ 500 mil do FEFC, R$ 300 mil do Fundo Partidário e R$ 75.675,67 em recursos estimáveis em dinheiro, ligados a equipe de acompanhamento e produção audiovisual. Os R$ 800 mil em dinheiro saíram do caixa público e do caixa partidário abastecido, em grande parte, pelo mesmo Estado. Doações de pessoas físicas pesaram pouco. Joselia Soares Martins Estevão aparece com R$ 8 mil. A própria candidata, com R$ 3,5 mil. Danielle de Sousa Ferreira, Enaille de Sousa Holanda, Francijane Sousa Ferreira e Jefferson Alves de Oliveira, com R$ 2 mil cada. Sete doadores no total. O partido pagou a campanha. Nas despesas, o ponto que a Justiça Eleitoral não pode tratar como detalhe contábil é a concentração. Jeová da Silva Moraes aparece com R$ 393 mil em três lançamentos. Isso equivale a cerca de 75,6% de tudo o que a campanha declarou ter gasto. O cadastro consultado descreve o fornecedor como pessoa jurídica ligada a obras de instalações em construções não especificadas. Na prestação eleitoral, o gasto foi agrupado em “diversas a especificar”.
A pergunta que interessa ao eleitor e ao Ministério Público Eleitoral é objetiva. Qual serviço, em qual data, com qual nota, qual contrato e qual comprovante bancário justifica R$ 393 mil?
Os demais fornecedores publicados não fecham o buraco da categoria. Ilmar Teixeira Linard Junior, R$ 45 mil em serviço contábil. Editora Gráfica Aliança Ltda., R$ 42.220 em material impresso. Romullo Silva Lima, R$ 20 mil em atividades fotográficas. Danilo Marques Sociedade Individual de Advocacia, R$ 10 mil. Jefferson Marques Costa, R$ 6,5 mil. Agência Pragma Ltda., R$ 1,5 mil. Igor Feitosa de Sousa Dantas, R$ 1 mil. Há ainda valores menores de publicidade digital, hospedagem de site e encargos. A base detalhada mostra cerca de R$ 421.041,99 em “diversas a especificar”, R$ 45 mil em contabilidade, R$ 42.220 em material impresso, R$ 10 mil em advocacia, R$ 1 mil em jingles, R$ 349,95 em impulsionamento e R$ 17,10 em encargos. Quase 81% da classificação por categoria cai numa rubrica que, pelo nome, ainda precisa ser decomposta lançamento a lançamento. A diferença matemática entre receita e despesa é de R$ 375.546,63. Esse número não prova que o saldo esteja na conta da candidata e não prova que o dinheiro tenha sumido. Prova apenas que a conta final ainda não foi julgada. Extrato, datas de transferência, origem de cada parcela e destinação do FEFC não usado são documentos, não opinião. A última agenda pública divulgada nas redes da campanha foi em 19 de setembro, no sul do Estado. Nos dias seguintes, veículos registraram a queda de publicações eleitorais. Em 21 de setembro veio o pedido formal. No documento, segundo a cobertura que teve acesso à decisão, a candidata declarou que a manifestação era voluntária e definitiva, sem coação, e reconheceu o efeito da homologação. No primeiro momento, Portal R10, O Dia e GP1 escreveram que procuraram a candidata ou a assessoria e não obtiveram resposta. Depois, o Lupa1 publicou que ela divulgou comunicado atribuindo a saída a uma batalha pessoal, citando depressão e pedindo respeito ao recolhimento. A declaração responde ao motivo pessoal. Não responde à origem dos R$ 875 mil, ao destino dos R$ 393 mil nem ao conteúdo dos R$ 421 mil “a especificar”. Gyselle Cajuína integrou a Federação União Progressista, União Brasil e Progressistas, que havia registrado 11 nomes à Câmara pelo Piauí. Escolaridade declarada: ensino médio completo. Bens: cerca de R$ 460,7 mil. Limite legal de gastos: R$ 3.176.572,53. A campanha ficou muito abaixo do teto e muito acima do que a maioria dos eleitores verá de material na rua.
Não há, nas fontes públicas até 23 de setembro, decisão judicial que afirme fraude, desvio, caixa dois, empresa fantasma, superfaturamento comprovado ou denúncia criminal do Ministério Público Eleitoral contra a candidata por esses valores. Concentração de gasto e origem partidária do recurso, sozinhas, não bastam para condenar. Bastam para fiscalizar. A prestação de contas ainda será examinada. O Progressistas nacional recebeu R$ 417.067.738,40 do FEFC para 2026. O partido decide internamente os critérios de rateio, com a ressalva legal das cotas de gênero e raça. Cabe à direção explicar por que uma candidatura que sairia 12 dias antes da urna recebeu R$ 875,6 mil. Cabe à Justiça conferir se o que foi pago corresponde ao que foi feito. O problema não começa nem termina nesse nome. O Fundo Especial de Financiamento de Campanha das eleições gerais de 2026 é de R$ 4.961.519.777,00. Quase cinco bilhões de reais públicos. O Fundo Partidário de 2026 está na casa de R$ 1,43 bilhão no Orçamento. Somados, passam de R$ 6,3 bilhões no ano do pleito, sem contar o horário gratuito de rádio e televisão. A fatia não é igualitária. O PL ficou com cerca de R$ 881,6 milhões do FEFC. O PT, com R$ 615,3 milhões. O União Brasil, com R$ 526,2 milhões. As três siglas concentram cerca de 40% do fundo. PSD, R$ 421 milhões. Progressistas, R$ 417 milhões. MDB, R$ 400 milhões. Seis partidos levam cerca de 65% do bolo. Dez legendas ficam só com a cota mínima de R$ 3,3 milhões cada. A regra está na Lei das Eleições. Dois por cento iguais para todo partido registrado. Trinta e cinco por cento pelos votos na última eleição para a Câmara. Quarenta e oito por cento pelas cadeiras na Câmara. Quinze por cento pelas cadeiras no Senado. Quem elege mais, recebe mais. Quem recebe mais, elege mais. O ciclo se alimenta com dinheiro do contribuinte.

No Piauí, o padrão das cotas pequenas já está documentado em eleição anterior. Em 2022, o GP1 publicou a distribuição do PL no Estado com dados do TSE. Vários candidatos a deputado federal receberam exatamente R$ 20 mil da direção: Dra. Hélida Milanez, Major Costa Araújo, Pastora Deisy, Raimundo Viana, Toni Boson e Weslley Demes. Mara Denise e Teresina de Jesus apareciam com zero naquele levantamento.No fim de setembro daquele ano, o mesmo veículo mostrou os gastos. Pastora Deisy, R$ 20.020. Dra. Hélida Milanez, R$ 19.976. Wesley Demes, R$ 18.775,66. Major Costa Araújo, R$ 13.421,42. Toni Boson, R$ 13.176. Coronel Viana, R$ 9 mil. Teresina de Jesus, R$ 5 mil. Mara Denise, R$ 4 mil. Leonardo Eulálio, o nome pesado da chapa, havia gasto R$ 943.458,20. A chapa proporcional precisa de nomes. O fundo precisa de destinatário. O eleitor precisa saber se o destinatário fez campanha ou só abriu conta.

Em 2024, o secretário Fábio Abreu, liderança informal do Podemos no Estado, admitiu à reportagem do O Dia o outro lado da mesma engrenagem. Dois candidatos do partido no Piauí não tiveram nenhum voto. Pelo menos outros quatro tiveram um voto. Ele atribuiu o desempenho à falta de Fundo Eleitoral em vários diretórios e afastou a tese de laranja, mas reconheceu que candidatos ficaram invisíveis. Zero voto e um voto são dados do TSE. A explicação política não apaga o número. A Justiça Eleitoral do Piauí já julgou o que acontece quando a chapa é enchida para cumprir tabela. Em 2016, duas coligações de Valença do Piauí lançaram candidatas que, segundo o processo, sequer fizeram campanha. Uma não foi votar. Outra zerou. O TRE-PI cassou os beneficiados. Em 17 de setembro de 2019, o TSE manteve a cassação de seis vereadores eleitos e declarou inelegíveis por oito anos os envolvidos, inclusive um candidato não eleito. Os ministros fixaram o entendimento de que fraude na cota de gênero contamina a coligação inteira. Os nomes cassados foram Raimundo Nonato Soares, Benoni José de Souza, Ariana Maria Rosa, Fátima Bezerra Caetano, Stenio Rommel da Cruz e Leonardo Nogueira Pereira. Antônio Gomes da Rocha, não eleito, também ficou inelegível. O precedente nasceu no interior do Piauí e vale para o país. Fora do Estado, o dossiê público é maior. Levantamento do Jornal Nacional sobre 2018 apontou ao menos 51 candidatos a deputado federal e estadual que receberam muito recurso público e obtiveram votação ínfima. Juntos, mais de R$ 8 milhões. Quarenta e cinco eram mulheres, no ano em que o TSE passou a exigir 30% do fundo para candidaturas femininas. O cruzamento do UOL, na mesma eleição, identificou 284 nomes com indícios de candidatura de fachada em 24 partidos. Movimentação: R$ 62 milhões. O caso mais citado do PSL em Pernambuco envolveu Maria de Lourdes Paixão: R$ 400 mil do fundo e 274 votos. A Polícia Federal apontou gasto concentrado em gráfica cujo endereço na Receita pertencia a café e papelaria no Recife. Em Roraima, a Operação Títeres investigou o uso de candidatas com custo por voto muitas vezes acima da média. Uma delas teria recebido quase R$ 105 mil e obtido nove votos. Em 2024, a Polícia Federal deflagrou em São Luís a Operação Malversador. Segundo a PF, um esquema de candidaturas fictícias de mulheres desviou R$ 1 milhão do FEFC. Uma das candidatas citadas recebeu R$ 300 mil e teve 18 votos. Custo médio: R$ 16.666,67 por voto. A polícia descreveu empresas de fachada, contratos fictícios e notas superfaturadas. Mandados de busca e pedido de cassação de vereadores eleitos pelo Podemos na capital maranhense constam da operação. Esses processos não autorizam copiar a acusação para Gyselle Cajuína. Autorizam a pergunta que a Justiça Eleitoral deveria fazer em toda prestação: quem recebeu, quem gastou, quem prestou o serviço, quem votou e quem desapareceu.

O Avante, número 70, entra nessa conta por outra porta. Em 2026, a sigla recebeu cerca de R$ 72,5 milhões do FEFC. No primeiro semestre, ainda acessou Fundo Partidário na casa de R$ 14 milhões. Nacionalmente, o Avante elegeu bancada pequena na Câmara em ciclos recentes. Sete deputados federais em 2022, na série histórica que vem do antigo PT do B. No Piauí, a sigla não elegeu deputado federal em 2018 nem em 2022. Joninha, em 2018, teve 24.078 votos e ficou fora. Em 2022, a bancada federal do Estado saiu de PT, PSD, PP e PV. Mesmo sem cadeira federal piauiense, o Avante lançou 27 candidaturas no Estado em 2026, segundo o Plural. Patrimônio mediano declarado: R$ 0. A chapa a vereador de 2024 na capital teve 30 nomes. A chapa majoritária de 2026 virou processo. Gustavo Henrique registrou candidatura ao governo. A direção estadual e a nacional contestaram a convenção. O TRE-PI restabeleceu registros da chapa até julgamento definitivo. Há candidatos do 70 com situação “aguardando julgamento”, “indeferido em prazo recursal” e até renúncia já na lista proporcional. O Avante nacional lançou 980 candidaturas em 2026 e, até 13 de setembro, havia repassado R$ 65,3 milhões a 488 nomes. Quase metade da chapa nacional ainda não aparecia como destinatária daquele corte. A conta não prova, por si, candidatura de fachada. Prova que o partido multiplica nome para cumprir lei, preencher urna e justificar fundo. O eleitor da capital e do interior não vê a maioria desses nomes na rua, no palanque nem no horário. A cláusula de desempenho existe exatamente para enxugar sigla sem voto. Em 2026, o partido precisa de 2,5% dos votos válidos para a Câmara, com 1,5% em nove unidades da Federação, ou 13 deputados federais espalhados por nove unidades. Em 2030, sobe para 3% ou 15 deputados. O Estadão projetou que, se repetir 2022, o Avante fica de fora do Fundo Partidário e do tempo de rádio e TV. Em 2022, a legenda teve 2% dos votos nacionais e passou de 1,5% em apenas sete Estados. Dez partidos já ficam só com a cota mínima do FEFC. Agir, DC, PCB, PCO, PSTU, UP, Mobiliza, Missão, PRTB e equivalentes da faixa de R$ 3,3 milhões não sustentam máquina nacional com esse valor. Ainda assim registram candidato em dezena de Estados. O custo de manter a sigla no papel é pago, em parte, pelo mesmo Fundo que falta no posto de saúde. A distribuição interna do FEFC é decisão do diretório nacional. O TSE não julga o mérito político do critério, salvo as cotas legais. Isso cria um ponto cego. O partido pode injetar R$ 875 mil numa candidatura de cobertura nacional e R$ 20 mil numa lista de nomes que mal saem de casa. Os dois movimentos cabem na lei atual. Os dois deveriam caber numa auditoria. O que a Justiça Eleitoral precisa abrir, com documento e não com discurso, é lista curta. Data de cada transferência do PP para a conta de Gyselle Cajuína. CNPJ, contrato, nota e comprovante dos R$ 393 mil de Jeová da Silva Moraes. Discriminação item a item dos R$ 421 mil em “diversas a especificar”. Comprovação dos R$ 75.675,67 em estimáveis. Saldo bancário na data da renúncia. GRU de devolução do FEFC não usado. Relação prévia entre fornecedores, candidata e partido.
No Avante 70 do Piauí, a cobrança é a mesma e ainda mais simples. Quem recebeu recurso público? Quem apresentou gasto? Quem fez ato de campanha depois do registro? Quem está inapto, indeferido ou em renúncia depois de movimentar conta? A prestação no DivulgaCand é pública. Não depende de vazamento. A lei hoje premia o tamanho da bancada e o volume de voto passado. Não exige prova prévia de campanha real para liberar a cota. Não corta automaticamente partido que passa década sem eleger federal no Estado. Não impede o registro em série de candidatos que recebem o piso e somem. A cláusula de barreira ataca o Fundo Partidário permanente. O FEFC, no ano da eleição, ainda pinga a cota mínima em quem não elegeu ninguém.
Mudar a regra é matéria do Congresso e, no limite, de interpretação do TSE e do Supremo quando a fraude está provada. Cassar chapa, como em Valença do Piauí, já é jurisprudência. Devolver FEFC sem comprovação já é resolução. Desaprovar conta já é rotina possível. Falta aplicar o conjunto com a mesma energia com que se homologa registro. O eleitor piauiense paga o fundo duas vezes. Paga na tributação. Paga de novo quando a urna oferece nome que não fez campanha, partido que não elegeu e prestador que aparece como “diversas a especificar”. Gyselle Cajuína deu uma explicação de saúde para sair. A campanha dela, o Progressistas, o Avante 70 e todas as legendas que repetem o modelo ainda devem a explicação do dinheiro. A votação é em 4 de outubro. A prestação de contas vem depois. O DJE do TRE-PI já registrou a homologação da renúncia. O que não pode ficar para depois do diploma é a conferência dos R$ 895 mil que entraram, dos R$ 519 mil que saíram e dos R$ 375 mil que a matemática deixou no meio do caminho.

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