terça-feira, 27 de outubro de 2026
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TEMPORAIS ATINGEM 119 CIDADES NO RIO GRANDE DO SUL E DEIXAM MORTE, DESAPARECIDOS E QUASE 1 MILHÃO SEM ENERGIA

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Foto · @obrowbrow | REVISTA The BrOW Brasil

Uma madrugada de vento, chuva e estruturas cedendo expôs a dimensão de um episódio severo que atravessou o Rio Grande do Sul em 21 de setembro, atingindo 119 municípios e afetando mais de 485 mil pessoas. Por alguns minutos, o que parecia apenas mais uma madrugada de chuva mudou de escala. árvores começaram a cair, postes foram derrubados, telhados desapareceram sob a força do vento e parte da infraestrutura urbana simplesmente deixou de funcionar. o rio grande do sul amanheceu diante de uma espécie de mapa de interrupções. não era apenas água nas ruas. era energia ausente, vias bloqueadas, estruturas danificadas e famílias obrigadas a reorganizar a própria rotina depois de uma noite em que a natureza ultrapassou aquilo que a cidade normalmente consegue absorver. desde a sexta feira, 18 de setembro, até o balanço divulgado na segunda feira, 21, a defesa civil estadual contabilizou 122 ocorrências relacionadas a chuva e vento em 119 MUNICÍPIOS. mais de 485 MIL PESSOAS FORAM AFETADAS, com 101 desabrigados e 701 desalojados. também foram registrados danos em 27 escolas e sete estabelecimentos de saúde.

em pelotas, no sul do estado, o cenário ganhou uma dimensão ainda mais dramática. a cidade registrou rajadas de 89 KM/H, suficientes para provocar destelhamentos, quedas de árvores e postes e interrupções no fornecimento de energia. as estações de tratamento de água chegaram a ficar inoperantes, enquanto a defesa civil recebia mais de 200 pedidos de atendimento nas primeiras horas após o temporal. mas houve uma consequência que ultrapassou o patrimônio. um motociclista morreu depois de ser atingido pela queda de fios de alta tensão durante o temporal, segundo informações da polícia civil divulgadas pela Agência Brasil. a ocorrência transforma uma madrugada de danos materiais em uma ocorrência com PERDA DE VIDA.

na mesma cidade, um imóvel localizado na rua Marcílio Dias, na região central, desabou durante a ventania. o prédio estava desocupado e não houve registro de vítimas no desabamento.

o detalhe mais revelador está justamente na diferença entre os números.

os 89 km/h registrados em pelotas não representam o pico estadual. em são jerônimo, as rajadas chegaram a 115,8 KM/H. em rio grande, alcançaram 113,7 km/h. em cerrado, chegaram a 104,1 km/h. pelo menos 20 municípios registraram ventos superiores a 80 km/h.

o fenômeno também mostrou como uma tempestade não precisa atingir todas as cidades da mesma maneira para produzir um impacto sistêmico.

em diferentes regiões, a energia elétrica foi interrompida em escala excepcional. balanços divulgados durante a segunda feira apontaram aproximadamente 969 MIL UNIDADES CONSUMIDORAS SEM ENERGIA nas áreas atendidas pelas distribuidoras, antes da redução gradual dos desligamentos.

é nesse ponto que o temporal deixa de ser apenas um acontecimento meteorológico e passa a revelar uma característica essencial das cidades contemporâneas: sua dependência absoluta de uma infraestrutura que normalmente só percebemos quando deixa de funcionar.

água depende de energia. comunicação depende de energia. transporte depende de vias desobstruídas. comércio depende de comunicação e eletricidade. hospitais dependem de sistemas funcionando continuamente. uma árvore derrubada pelo vento pode parecer uma ocorrência isolada, mas, quando derruba uma rede elétrica, bloqueia uma avenida e interrompe serviços, ela passa a fazer parte de uma cadeia muito maior. O alerta, por sua vez, não surgiu depois do desastre. A defesa civil estadual havia previsto para a madrugada de 21 de setembro condições de tempo severo, com possibilidade de tempestades, granizo e rajadas superiores a 100 km/h em diversas regiões do estado. o órgão também indicava possibilidade de chuva intensa e, em determinadas áreas, risco para tornado. Em pelotas, a prefeitura já havia divulgado no domingo, 20 de setembro, previsão de chuva forte, granizo e rajadas entre 90 E 110 KM/H. equipes municipais foram mobilizadas antes da chegada do temporal. há uma diferença importante entre prever um fenômeno e impedir seus efeitos. A meteorologia consegue indicar condições atmosféricas favoráveis ao tempo severo. a defesa civil consegue emitir alertas e organizar respostas. mas nenhuma dessas estruturas consegue eliminar completamente a vulnerabilidade de uma cidade diante de ventos extremos, chuva intensa e queda de árvores, postes e estruturas. Em caxias do sul, quatro pessoas chegaram a ser dadas como desaparecidas após ocorrências relacionadas à enxurrada. três estavam em um veículo arrastado pela água, enquanto outra ocorrência envolveu um homem que realizava a limpeza de uma galeria e teria sido levado pela correnteza. O episódio também alcançou uma dimensão psicológica que os números dificilmente conseguem traduzir. Quando uma cidade perde energia, quando uma rua desaparece atrás de árvores caídas ou quando fios de alta tensão passam a representar risco imediato, o espaço cotidiano deixa de obedecer às regras habituais. o caminho conhecido deixa de ser necessariamente seguro. a residência deixa de significar proteção absoluta. a rotina, construída durante anos, pode ser interrompida em poucos minutos. é justamente essa ruptura que transforma um evento climático em experiência social. o temporal não atinge apenas telhados. ele atinge a sensação de previsibilidade. E talvez seja essa a parte menos visível de uma tempestade severa. depois que a água baixa e o vento desaparece, permanece uma pergunta silenciosa: quantas cidades estão preparadas para funcionar quando aquilo que sustenta a rotina deixa de funcionar? O rio grande do sul já conhece a força destrutiva de eventos extremos. mas cada novo episódio produz uma espécie de laboratório involuntário para observar como infraestrutura, planejamento urbano, sistemas de alerta e comportamento coletivo respondem quando submetidos simultaneamente à pressão. Não se trata de transformar cada tempestade em prenúncio de catástrofe. trata se de compreender que A PREVENÇÃO COMEÇA ANTES DO PRIMEIRO VENTO.Em pelotas, a previsão havia apontado para uma madrugada perigosa. no estado, a defesa civil havia alertado para rajadas superiores a 100 km/h. horas depois, 119 municípios estavam contabilizados entre as áreas afetadas. a natureza não negocia com a velocidade da rotina humana. Etalvez seja justamente por isso que o verdadeiro aprendizado de uma madrugada como essa não esteja apenas na velocidade máxima registrada pelo anemômetro, na quantidade de árvores derrubadas ou no número de consumidores sem energia. está na percepção de que uma cidade preparada não é aquela que acredita conseguir impedir todos os desastres. é aquela que sabe COMO RESPONDER QUANDO O IMPREVISÍVEL ROMPE A NORMALIDADE. o vento passa. a cidade permanece. e é depois da tempestade que começa a parte mais silenciosa da reconstrução: descobrir o que resistiu, o que falhou e o que precisa ser diferente antes que a próxima rajada transforme novamente o cotidiano em emergência.

RB

Redação The Brow Brasil

Redação The Brow Brasil, jornalismo, investigação e cultura.

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