No Estúdio Entre Luzes, episódio 3 com apoio da Comercial Xodó, durante série especial de setembro no Setembro Amarelo, Bárbara S. Cajazeiras aponta que a falta de escuta genuína transforma o lar em tribunal silencioso para adolescentes e adultos.

A dificuldade de expressar emoções, fragilidades e preocupações com as pessoas mais próximas nasce da ausência de um espaço genuíno de acolhimento, segundo a psicóloga Bárbara S. Cajazeiras, registrada sob o CRP 21/07092 e pós-graduanda em Terapia Cognitivo-Comportamental, que realiza atendimentos on-line. O ambiente familiar, que deveria ser porto seguro, frequentemente vira um campo de julgamento em que o medo paralisa a comunicação. Acolher não significa concordar com tudo, mas estar disposto a ouvir e compreender o outro sem tentar mudá-lo. A demonstração de um espaço seguro e livre de críticas é o que permite o desabafo nos momentos de maior dificuldade. Essa comunicação não surge de repente: é construída diariamente por meio de conversas simples.
A especialista destaca que o primeiro passo para ajudar alguém é fazê-lo se sentir seguro para falar. Muitas barreiras vêm de idealizações irreais. É preciso compreender a subjetividade de cada família, clarificar planos pessoais e estabelecer os limites do que se deseja e consegue cumprir. Frustrações surgem da incapacidade de verbalizar limitações diante de problemas concretos, como o fim de um relacionamento ou a acumulação de dívidas de cartão de crédito.
A adolescência é a fase em que a tensão atinge o pico. Marcada por alterações hormonais, autodescoberta e transição para as responsabilidades adultas, ela exige paciência de pais e filhos. Enquanto os jovens constroem identidade na saída da infância, os adultos aprendem a exercer o papel parental em meio à rotina acelerada e aos receios. Quando a cobrança se torna excessiva e o núcleo direto não oferece acolhimento, irmãos mais velhos, tios e primos assumem papel vital como rede de apoio. O adolescente raramente precisa de respostas imediatas, mas clama por alguém disposto a escutar sem emitir veredicto.

Outro pilar de adoecimento está na imposição de caminhos de vida. Os sonhos dos filhos raramente serão os mesmos dos pais. A relação exige o reconhecimento de que os filhos são indivíduos independentes, com vontades próprias, e não extensão dos progenitores. Frustrações familiares aparecem quando os jovens não seguem os ideais ou as profissões idealizadas. Escolher caminho diferente não traduz falta de capacidade, mas visão própria de realização.
A base para resolver esses conflitos é o diálogo e a análise de se as cobranças sentidas foram de fato verbalizadas pela família ou se são apenas pensamentos automáticos do próprio filho. Como lembra o poeta Khalil Gibran, os filhos não são nossos filhos: são filhos e filhas da ânsia da vida por si mesma. Quando as expectativas não são ditas e se transformam em projeções silenciosas, o jovem pode construir uma versão de si que agrada, mas não é verdadeira. Romper o silêncio exige desconstruir essas idealizações. Uma comunicação aberta e constante evita que sonhos distintos se transformem em guerras e que a expectativa sufoque a realidade do presente. Ouvir também é cuidar. A maior prova de respeito a um ser humano em formação é o direito de existir exatamente como se é, com defeitos, escolhas e incertezas, em um espaço onde a voz não precisa tremer antes de confessar a própria verdade.

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