Em entrevista ao vivo, o candidato à Presidência justifica os milhões pedidos ao ex-banqueiro para o filme Dark Horse e afirma que Luciano Huck teria recebido 160 milhões em propaganda do mesmo empresário
Brasília, 17 de outubro de 2026. Na bancada da TV Globo, sob o olhar firme de Renata Lo Prete, Flávio Bolsonaro não recuou. Questionado sobre os quase 70 milhões que Daniel Vorcaro efetivamente repassou após o pedido de 134 milhões para financiar o filme Dark Horse, biografia cinematográfica do pai, o candidato soltou a frase que imediatamente circulou: um dinheiro TOTALMENTE LÍCITO, como era aqui na Globo. O Luciano Huck recebeu 160 milhões pra fazer uma propaganda. A comparação não veio solta. Veio como escudo e, ao mesmo tempo, como lâmina. O mesmo Vorcaro que hoje é alvo de investigações da Polícia Federal por suspeitas de lavagem, evasão de divisas e irregularidades no Banco Master teria, segundo Flávio, financiado também a emissora e o apresentador em cifras robustas, sem que isso gerasse o mesmo escândalo agora direcionado a ele. O contexto que cerca a declaração é denso. Em maio de 2026, mensagens e comprovantes revelados pelo Intercept Brasil mostraram Flávio cobrando o empresário com tom de urgência para concluir o filme. Do total pedido, cerca de 61 milhões chegaram em transferências que passaram por empresas e foram parcialmente encaminhadas a um fundo imobiliário nos Estados Unidos administrado por advogado ligado a Eduardo Bolsonaro. A produtora estimou o custo da obra em torno de 75 milhões. A diferença entre o solicitado e o gasto, somada ao caminho do dinheiro, alimentou o inquérito que a PF pediu para prorrogar. Flávio sempre sustentou que se tratava de relação privada, sem dinheiro público, sem Rouanet, e que todos os recursos aportados foram usados na produção. Na sabatina da Globo, repetiu a linha e ampliou o campo de batalha: se o dinheiro de Vorcaro era aceitável para a Globo e para o Domingão com Huck, por que não seria aceitável para o filme sobre Jair Bolsonaro.
A estratégia retórica é clara. Em vez de discutir exclusivamente a destinação dos recursos e o contrato que, segundo ele próprio, não foi cumprido na íntegra, Flávio desloca o foco para a normalidade do capital de Vorcaro em outros espaços de prestígio. Cita o apresentador e, em trechos da mesma entrevista, menciona também relações comerciais do empresário com veículos do grupo. A jornalista rebateu que patrocínio comercial e financiamento de uma obra cinematográfica não são a mesma coisa. Ainda assim, a frase ficou no ar, pronta para ser recortada e viralizada. Nas redes, o movimento foi lido por muitos como jogar os amigos na fogueira. Flávio, ao tentar legitimar o próprio recebimento, colocou sob suspeita a aceitação prévia daquele mesmo dinheiro por nomes e instituições que costumam ocupar o polo oposto do espectro político-midiático.
Por trás dos números e das acusações cruzadas está o velho mecanismo brasileiro de contaminação por associação. Vorcaro saiu do controle do Master sob forte pressão regulatória e criminal. Qualquer vínculo posterior vira combustível. Flávio insiste que conheceu o banqueiro depois do fim do governo do pai e que buscava apenas patrocínio privado para um projeto privado. A Polícia Federal investiga se houve mais do que isso. O fundo americano, o volume solicitado acima do orçamento declarado e a trajetória das transferências formam o núcleo da apuração. Enquanto isso, o candidato transforma a defesa em ataque: o dinheiro era o mesmo, a origem era a mesma, a diferença estaria apenas em quem o recebeu e para qual finalidade cultural ou comercial. O episódio revela mais do que uma controvérsia eleitoral de 2026. Mostra como o capital de origem questionada circula com relativa facilidade enquanto serve a interesses diversos e só se torna problema quando atravessa determinadas fronteiras simbólicas. Flávio Bolsonaro, ao invocar os 160 milhões de Huck e a Globo, não apenas se defende. Ele obriga o espectador a olhar para o espelho e perguntar quantas vezes o mesmo dinheiro foi bem-vindo antes de se tornar indesejável. A resposta, como quase tudo nesta história, ainda está em aberto, mas a frase já cumpriu sua função: tirou o debate do terreno exclusivo da defesa e o colocou no terreno movediço da seletividade.

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