

No Piauí, a disputa pelo Senado deixa de ser só nome de urna e vira teste de lealdade: quem produz no campo contra quem vive há três décadas no Congresso. O eleitor de direita no Piauí entra em 2026 com um problema concreto. Há duas vagas no Senado. No campo da oposição ao governo estadual petista, o PL e o Progressistas fecharam aliança e colocaram na mesma chapa o empresário Tiago Junqueira e o senador Ciro Nogueira. Na prática, o voto útil da direita deixa de ser automático. Um nome chegou ao cargo pela primeira vez. O outro está em Brasília desde 1995. Um construiu patrimônio no agronegócio de Regeneração. O outro acumula mais de três décadas de mandato, passagem pela Casa Civil de Jair Bolsonaro e, agora, o peso de uma investigação da Polícia Federal no caso do Banco Master. Ciro Nogueira nega as acusações. A PF, o STF e a imprensa nacional não deixaram o tema sair da pauta. O recorte que interessa ao eleitor que se declara patriota e de direita não é o da bajulação. É o da conta. Quem votou em Bolsonaro em 2018 e 2022, quem acompanha o agro, quem cobra oposição sem volta ao centrão precisa saber o que cada um fez, o que cada um defende e o que cada um carrega nas costas.

A origem de Tiago Maximiano Junqueira não é o gabinete. Nasceu em 29 de abril de 1976, em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo. É o caçula de seis irmãos, filho do advogado e produtor rural Manoel Junqueira e da professora Maria Lília. Formou-se engenheiro agrônomo na Unesp de Jaboticabal. Em 2004, aos 28 anos, veio para o Piauí com a família para abrir uma fronteira agrícola no Médio Parnaíba. Comprou terra em Regeneração quando o município ainda não tinha tradição de soja em larga escala. A Fazenda Chapada Grande, da empresa REAL – Regeneração Agropecuária Ltda., hoje soma cerca de 20 mil hectares. O projeto original previa 12 mil hectares de grãos. Houve desvio para eucalipto depois da chegada da Suzano ao Estado. A família voltou ao plano agrícola e concluiu a área de grãos na safra de 2022. A fazenda emprega cerca de 90 pessoas no quadro fixo e chega a 140 na safra. Declara preservação de mais de 30% da área e opera com mecanização, agricultura de precisão e avião agrícola. O site da propriedade fala em mais de um milhão de sacas de grãos na produção anual do grupo e atuação também em São Paulo, Paraná e Goiás. Tiago vive no Piauí há 22 anos. Casou-se em 2010 com a piauiense Jhamya Junqueira, hoje primeira suplente da chapa 222. Recebeu título de cidadão de Regeneração em 2007, de cidadão piauiense em 2022 e de cidadão teresinense em 2025.
Esse currículo não o transforma em santo. Em 2005, a Fazenda Chapada Grande foi autuada pelo Ibama por receber 898 toneladas de madeira sem licença. A multa, que partiu de R$ 14,1 milhões, chegou a R$ 42,4 milhões em 2012. Reportagens de 2022 mostraram que o débito prescreveu no governo Bolsonaro. Em 2018, Tiago circulou com o chamado mitomóvel em apoio a Bolsonaro e chegou a receber vídeo gravado do então candidato. Em 2023, um avião de sua empresa fez pouso forçado em Teresina. O piloto e um passageiro tiveram ferimentos leves. Nada disso apaga o fato de que o patrimônio declarado ao TSE nesta eleição, de R$ 18,28 milhões, está ligado a terra, quotas de empresas agropecuárias, imóveis e veículos. É patrimônio de quem planta, não de quem só transita no Orçamento. Ciro Nogueira Lima Filho é outra história. Piauiense, advogado formado pela PUC do Rio, chegou à Câmara em 1995 pelo antigo PFL. Cumpriu quatro mandatos de deputado federal. Foi eleito senador em 2010 e reeleito em 2018. Preside o Progressistas desde 2013. Entre agosto de 2021 e dezembro de 2022, foi ministro-chefe da Casa Civil de Bolsonaro. Nunca ficou fora de Brasília por mais de 30 anos, salvo o período no ministério. O currículo parlamentar é longo. A fidelidade ideológica, não. Ciro apoiou governos de sinais opostos. Esteve na base de FHC. Aproximou-se do PT nos anos Lula. Em 2014, o PP de Ciro integrou a coligação que reelegeu Dilma Rousseff. Depois votou pelo impeachment. Em 2022, ajudou a articular a reeleição de Bolsonaro e conduziu parte da transição. Depois da derrota, passou à oposição a Lula. Em 2026, o Progressistas ficou neutro na disputa presidencial. Tiago Junqueira, no mesmo campo estadual, declara voto em Flávio Bolsonaro e diz que quer o Piauí fora da lanterninha da votação de esquerda. A diferença não é de estilo. É de âncora. O peso que mudou o tabuleiro veio em 7 de maio de 2026. A Operação Compliance Zero, da Polícia Federal, cumpriu busca e apreensão contra Ciro no inquérito do Banco Master, de Daniel Vorcaro. A PF investiga se o senador recebeu pagamentos mensais, entre R$ 300 mil e R$ 500 mil, além de viagens, hospedagens e outras vantagens, em troca de atuação legislativa favorável ao banco. Relatos da investigação falam em cerca de R$ 18 milhões em depósitos. Documentos teriam sido encontrados até na churrasqueira da residência. A PF aponta ainda participação societária com deságio e uso de empresa familiar. O irmão Raimundo Nogueira, primeiro suplente da chapa de Ciro, também é investigado. Ciro classifica o caso como ataque fabricado e nega ilícito. Presunção de inocência vale. O eleitor de direita, porém, não é obrigado a fingir que a operação não existe.
A Folha mostrou o senador intensificando agenda no interior depois da busca. Visitou seis municípios num único dia. Evita atrelar a imagem a bolsonaristas, segundo a mesma reportagem, embora tenha sido ministro de Bolsonaro. Lula, em comício no Piauí, chamou-o de vira-lata e disse que seus candidatos ao Senado são Marcelo Castro e Júlio César. A frase do presidente não decide voto da direita. O histórico de Ciro no centrão, sim. Patrimônio também entra na conta. Ciro declarou R$ 34,61 milhões ao TSE em 2026, o maior entre os candidatos ao Senado no Estado. Em 2018, eram R$ 23,31 milhões. O salto em oito anos é de 48%. A fatia maior agora está em aplicação de renda fixa de R$ 13,48 milhões e em lucros de empresa superiores a R$ 15 milhões. A PF apreendeu dinheiro em reais, dólares, euros e lira turca, relógios de luxo e veículos. A defesa tentou reaver jatinho e BMW oferecendo imóvel em Teresina. A PGR contestou a avaliação do bem. Tudo isso está nos autos e na imprensa. Não precisa de adjetivo. As pesquisas explicam por que a direita organizada olha o segundo voto com lupa. Em junho, o Instituto Amostragem apontou Ciro como o mais rejeitado da disputa: 18,21% dos eleitores disseram que não votariam nele de jeito nenhum. Tiago aparecia com 4,93% de rejeição. No Datafolha de meados de setembro, Ciro, Marcelo Castro e Júlio César empatavam na casa dos 15% a 17%. Tiago oscilava entre 4% e 5%. Na Datamax da mesma semana, Ciro caía para terceiro e seguia com rejeição de 17,42%. Número alto de rejeição trava crescimento. Número baixo de conhecimento, no caso de Tiago, ainda deixa espaço. A direita que quer mudar o mapa precisa decidir se prefere o nome conhecido e desgastado ou o nome novo e alinhado.

O que Tiago apresenta como pauta não é programa de gabinete. É o recorte de quem planta no Estado desde 2004. No programa Conectando, chamou o Piauí de diamante bruto e disse que chegou a hora de retribuir o que o Estado lhe deu: a fazenda e a mulher. Defendeu que o agro não é só do grande produtor do sul do Estado. Citou os Tabuleiros Litorâneos, no litoral, e o perímetro irrigado de Guadalupe. A frase que repetiu em entrevistas é direta. Não entende como Guadalupe ainda não virou uma Petrolina. Os canais de irrigação existem. Há banana plantada. Há barragens subutilizadas. O governo estadual já publicou estudos de PPP para os dois perímetros: 6.017 hectares irrigáveis nos Tabuleiros, com estimativa de 6 mil empregos e R$ 853 milhões em infraestrutura, e 10.238 hectares em Guadalupe, com estimativa de 10 mil empregos e R$ 1,76 bilhão. O atraso de décadas é o ponto que o candidato do PL transforma em acusação política. Falta vontade, diz ele, não falta água potencial. No debate do g1, Tiago afirmou que senadores do Estado não enfrentaram a seca com a urgência devida. Criticou imposto sobre placa solar, hidrômetro no campo e a taxa FDI cobrada do produtor sob o pretexto de estrada no sul. Falou em turismo de negócios em Teresina e em investimento nos cânions, no litoral e na Serra da Capivara. Distinguiu quem vive da máquina pública de quem já teve folha para pagar no privado. É o tipo de fala que a direita produtiva reconhece. Não resolve sozinha a seca. Mas coloca o Senado no eixo de irrigação, energia e carga tributária, em vez do eixo de emenda e articulação de partido. A caravana Acorda Piauí – Rota 222 + 2 foi o instrumento de apresentação. O próprio candidato admitiu o problema: o eleitor de direita existe, mas muitos ainda não o conhecem. A meta declarada em maio era visitar municípios, falar com o patriota já decidido e com quem votou em Lula em 2022 e se diz arrependido. Em 2022, o Piauí deu a Bolsonaro cerca de 23% contra 77% de Lula. Tiago apostou que o Estado pode deixar de ser a maior lanterninha proporcional da direita. A frase é ambiciosa. O PL estadual, sob a presidência dele desde 2025, partiu de base pequena. Em 2022, a votação federal da legenda no Piauí foi residual. A convenção de 1º de agosto de 2026 oficializou Tiago ao Senado, Jhamya como suplente e o apoio a Joel Rodrigues no governo. Ciro e Joel subiram no palco. A foto da aliança não apaga a diferença de origem. Há um ponto que o eleitor de direita precisa encarar sem romance. Tiago e Ciro estão na mesma coligação Juntos pelo Piauí, com PODE, PL e a federação União Progressista. Votar nos dois é o desenho da chapa. Separar os dois é o desenho de quem mede caráter e risco. O Progressistas de Ciro tem máquina de prefeitos. Reportagens falam em apoio de cerca de 200 gestores, inclusive de partidos da base petista. Essa é a força clássica do centrão no interior. Também é o motivo pelo qual parte da direita desconfia. Quem articula com todo mundo o tempo todo raramente segura uma linha. Ciro já foi o fiador do PP em Brasília. Já foi o homem da Casa Civil. Já foi o alvo da PF. Os três capítulos cabem no mesmo currículo. A pergunta que o título desta cobertura levanta não pede culto à personalidade. Pede critério. O patriota de direita que quer Flávio Bolsonaro no Planalto encontra em Tiago um aliado explícito. Em Ciro, encontra um partido que optou pela neutralidade presidencial. O produtor que cobra irrigação em Guadalupe e nos Tabuleiros encontra no agrônomo de Regeneração alguém que visita o perímetro desde 2004 e cobra o atraso em público. No senador reeleito, encontra o operador de emenda, de federação e de governo. O eleitor que rejeita investigação de mesada de banqueiro encontra em Tiago rejeição baixa e inquérito eleitoral inexistente no mesmo grau. Em Ciro, encontra o centro da Operação Compliance Zero. De novo: ele nega. De novo: o fato policial existe.
A vida de Tiago no Piauí é a de um paulista que apostou em terra barata, sofreu atraso de projeto, plantou soja onde não havia escala e agora pede voto com o número 222. A vida de Ciro é a de um parlamentar que nunca saiu do eixo Brasília-Teresina do poder formal. Um construiu fazenda. O outro construiu partido. Um fala em transformar o Estado em praça de direita e de produção. O outro tenta renovar mandato sob busca e apreensão. O eleitor que se diz de direita raiz não precisa xingar o aliado de chapa. Precisa ler o prontuário. O Senado que o Piauí elege em 4 de outubro não é vitrine. São oito anos. Quem entra leva a conta da seca, do agro familiar, da fruticultura irrigada, da carga tributária e da posição do Estado no mapa nacional. Guadalupe continua sem ser Petrolina. Os Tabuleiros Litorâneos seguem no papel de PPP. O sul do Estado produz grão e reclama de pedágio e taxa. A capital discute turismo de negócio e emprego. Nada disso se resolve com discurso de palanque. Resolve, em parte, com quem tem interesse direto em ver a lavoura andar. Esse é o argumento que a campanha de Tiago Junqueira oferece sem precisar de ouro no pulso.

Ciro Nogueira ainda pode se reeleger. Tem nome, estrutura e o hábito de sobreviver a ciclo político. Tiago Junqueira ainda pode ficar de fora. Tem fazenda, discurso de direita e pouca penetração nas pesquisas. A conta da urna, no entanto, não é só intenção de voto de junho. É o que o eleitor de oposição faz com o segundo voto quando olha o prontuário dos dois. Um chegou para retribuir o Estado que lhe deu terra e família. O outro chegou para não perder o assento que ocupa desde 2011. Entre os dois, a direita que se leva a sério já sabe onde está o risco e onde está o ineditismo. O resto é propaganda.

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